Wicked: Parte I (2024) e Wicked: Parte II (2025)

 By Cathy Scarlet



FICHA TÉCNICA

Filme: Wicked: Parte I (2024) e Wicked: Parte II (2025) (Wicked e Wicked: For Good)
Diretor: Jon M. Chu
Ano: 2024 e 2025
Duração: 160 minutos e 137 minutos
País: Estados Unidos
Gênero: Fantasia, musical

Nota: 9


Muitos universos literários foram adaptados ao longo da era cinematográfica, pois a necessidade de transmitir aquela magia tornou-se um símbolo do campo fantástico. Indo nesse embalo, algumas produções querem ir além: traçar caminhos que sondem a origem de mitos e lados ocultos. Isso oferece maiores possibilidades de abordagem, surpreendendo os espectadores ávidos por serem maravilhados. Após assistir às duas partes de Wicked, posso dizer que minha percepção do universo construído por L. Frank Baum foi surpreendentemente ampliada.

A história começa pelo fim. O povo de Oz está comemorando a morte da Bruxa Má do Oeste, enquanto Glinda, a Boa, está junto deles. De repente, ela é questionada sobre a relação que tinha com a falecida. É nesse momento que o tempo retrocede e ficamos diante do início da trajetória dessa figura cuja pele verde era símbolo de algo nefasto. Rejeitada desde o nascimento pelo pai e considerada culpada pela morte da mãe, Elphaba teve de aprender a se defender da hostilidade do mundo. Encontrava no amor pela irmã a única maneira de se sentir parte de algo. No entanto, Nessa desejava independência dos cuidados do pai e da primogênita da família.

Quando Nessarose é enviada para a Universidade Shiz, Elphaba conhece Galinda (nome original de Glinda) e Madame Morrible — nome bastante sugestivo, como verão. Esta percebe todo o potencial da mulher de pele verde e a adota como pupila. Invejando a nova colega de quarto e, em contrapartida, sofrendo com a implicância dela por causa de sua personalidade e atitudes, Galinda vive a provocá-la. Elphaba, porém, não se deixa intimidar.

Em uma dessas tentativas de provocação, Galinda intenta humilhar a rival e lhe entrega o famoso chapéu de bruxa. Grata pelo gesto, Elphaba exige que Madame Morrible também aceite a loira como pupila, ameaçando abandonar sua tutela. Ao descobrir o ato feito em seu favor, Galinda passa a enxergar a filha do governador como sua melhor amiga.

A partir dessa relação, Elphaba começa a se aproximar ainda mais de Fiyero. A paixão entre ambos aumenta quando o príncipe admira sua coragem em lutar pelos animais, considerados indesejáveis pela nova política adotada pelo Grande Oz. Ao bani-los como parte do povo de Oz, o governo faz com que eles comecem a perder a capacidade de fala e se tornem párias diante dos demais, que os humilham e destratam. A bruxa, por sua vez, passa a admirá-lo por unir-se a ela nessa luta. Ambos aprendem a valorizar quem o outro realmente era, muito além da aparência.

Mesmo descobrindo todo o poder que possui e percebendo que poderia se unir ao grande mago e líder de Oz, Elphaba se volta contra ele e Madame Morrible, apesar dos protestos de Galinda. Em retaliação, a dominadora do clima espalha ao povo que a ex-pupila havia se tornado uma ameaça à vida de todos. Dessa forma, passam a temê-la e persegui-la.

Apesar da situação, Elphaba não desiste de seus ideais e procura denunciar quem o Grande Oz realmente é. Contudo, o povo não deseja enxergar a verdade, e Madame Morrible aproveita-se disso para intensificar a perseguição contra ela. Para tal, arquiteta uma tempestade que vitima a irmã da bruxa. Nesse contexto, Elphaba descobre que os sapatos que pertenciam à mãe foram confiscados por Dorothy, que saiu em busca do Mágico de Oz pela estrada de tijolos amarelos — sugestão de Glinda. Quando ambas se encontram, guardas avançam para prender Elphaba, e Fiyero surge ameaçando atirar na Bruxa Boa para libertar a amada. Atônita ao perceber a postura do ex-noivo, a loira finalmente compreende os reais sentimentos dele pela melhor amiga. Implora para que não o machuquem, enquanto a bruxa aproveita para fugir a pedido do príncipe.

Em dado momento, Glinda percebe toda a dimensão daquele cenário e confronta Madame Morrible. Decide, então, encontrar Elphaba. Esta a impede de revelar a verdade ao povo de Oz. A justificativa é simples: eles precisavam de uma figura má para que ela pudesse continuar sendo vista como boa. Elphaba entrega a Glinda o livro de feitiços e a adverte de que ela será a única capaz de mudar a situação dali em diante. Escondida, testemunha a famosa cena da água jogada por Dorothy sobre a amiga e, chorando, acredita em sua morte. Entretanto, resoluta em cumprir o último pedido de Elphaba, reúne humanos e animais como iguais, após expulsar o Mágico de Oz e prender Madame Morrible com a ajuda dos macacos voadores.

Os elementos da história original — como os sapatos de prata, a casa caindo, Dorothy, o Homem de Lata, o Espantalho, o Leão e a frase “Não há lugar como o nosso lar” (presente apenas na versão não dublada) —, combinados à nova perspectiva, conseguem ressignificar toda a narrativa. Dessa maneira, a história não contada daquela que inicialmente surgiu como vilã nas adaptações, bem como sua relação com a Bruxa Boa, ganha novas nuances, humanizando a antagonista e oferecendo maior complexidade psicológica às personagens. Ao mesmo tempo, a trama revela lados ocultos tanto de Elphaba quanto de Glinda — o Mágico de Oz nunca me enganou.

Além disso, Glinda assume camadas mais densas. A personagem demonstra que a bondade sem ações concretas, focada apenas na exposição pública, torna-se vazia e facilmente manipulável. Soma-se a isso a dualidade presente em cada um de nós: não é possível ser bom ou mau o tempo inteiro. Somos seres esféricos.

Eis que o foco retorna a Elphaba. Sua construção procura explicar as possíveis razões para sua maldade… e acaba chegando ao povo de Oz e aos seus líderes: eles precisavam de sua figura para demonizar e justificar as mazelas que ocorriam, incluindo os próprios lados sombrios que vieram à tona durante a perseguição à bruxa. A situação dialoga diretamente com nossa realidade: a partir de boatos e maquinações, passamos a desprezar e odiar alguém. Como consequência, repudiamos quaisquer atos dessa pessoa e desejamos expurgá-la da existência a qualquer custo, como uma chaga capaz de danificar toda a conjuntura social. Entretanto, esse comportamento apenas hipervaloriza aqueles que efetivamente nos manipulam e utilizam o caos para esconder tanto seus lados obscuros quanto atos de corrupção.

Em detrimento de seus direitos como seres vivos, os animais são excluídos da sociedade por meio de leis e de um tratamento hostil — inicialmente velado. Eles nos lembram das minorias ignoradas e excluídas da benevolência e da dignidade com que todas as pessoas deveriam ser tratadas. Em muitos momentos, agimos como o povo de Oz: fingimos não enxergar aqueles que mais necessitam integrar-se ao todo, buscamos desesperadamente uma figura para culpabilizar e sorrimos para quem causa todos os martírios, alçando essas pessoas a um poder aparentemente inabalável dentro da estrutura social.

Em suma, esses longas-metragens não devem ser vistos como a obra original, mas como releituras que acrescentam outra camada de complexidade à narrativa. E isso serve perfeitamente ao propósito da adaptação, ampliando-a diante de nossos olhos ávidos por significado. Apesar de não ser muito fã de musicais, admito que o repertório musical me fez brilhar os olhos na maioria das cenas em que surge. Soma-se a isso a belíssima fotografia dos cenários e da maquiagem. Essa produção enfeitiça o espectador e preenche lacunas deixadas pela obra original. Ao dar complexidade à humanidade das personagens, faz com que compreendamos melhor a nossa própria. Para aqueles que realmente prestarem atenção aos detalhes trazidos pelas situações, haverá boas doses de reflexão imersas numa roupagem aparentemente leve. Recomendo para quem não tem medo de sair de seus lugares comuns nem da bolha que impede o olhar para o outro. Vale muito a experiência!







XOXO




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