Apagamento histórico e desafios da produção cultural na formação da identidade brasileira (2026)
By Cathy Scarlet
Nossa produção cultural enfrenta diversos obstáculos estruturais tanto para
sua criação quanto sua circulação social. Entre os entraves, destaca-se o
apagamento histórico de determinados grupos sociais e de suas contribuições
para a formação da cultura nacional. Esse fenômeno envolve complexos mecanismos
políticos, sociais e simbólicos que determinam quais narrativas são legitimadas
e quais permanecem invisibilizadas. Nesse contexto, muitas experiências
culturais acabam sendo ocultadas por estruturas marcadas por preconceito, pela
lógica da branquitude e por hierarquias sociais herdadas do período colonial. Assim,
compreender os desafios inerentes à nossa realidade exige analisar criticamente
como a constituição da identidade foi marcada por exclusões e silenciamentos
históricos que ainda se fazem presentes na contemporaneidade.
A ideia de nação, como aponta Ernest Renan (1997), é construída a partir
de processos de memória e esquecimento compartilhados. Toda comunidade se
sustenta não apenas na lembrança de eventos comuns, mas também em determinados
esquecimentos coletivos que permitem a construção de uma narrativa
aparentemente coesa, contribuindo para apagar ou minimizar conflitos sociais e
desigualdades estruturais que marcaram profundamente a formação do Brasil. Como
consequência, a cultura brasileira foi frequentemente apresentada como
homogênea e harmoniosa, ocultando tensões raciais, sociais e regionais que
fazem parte da realidade histórica do país. Tal narrativa conciliadora
dificulta o reconhecimento de disputas simbólicas e de processos de exclusão. Essa
dinâmica torna-se ainda mais evidente quando observamos a forma como as
contribuições de povos indígenas e da população negra foram historicamente
marginalizadas ou tratadas de maneira superficial. A cultura brasileira é
profundamente marcada pela presença africana e afro-diaspórica, o que se
denominou “amefricanidade”, conceito que evidencia a centralidade das
experiências afro-americanas na formação cultural do continente (GONZALEZ,
1988). No entanto, tais influências foram frequentemente apropriadas sem o
devido reconhecimento de seus sujeitos históricos. A invisibilização dessas
contribuições produz um cenário no qual manifestações culturais fundamentais
para a identidade brasileira são muitas vezes despolitizadas ou reduzidas a
elementos folclóricos, esvaziados de sua dimensão histórica e social.
De maneira semelhante, Sueli Carneiro (2005) argumenta que o racismo
estrutural produz um mecanismo de desumanização simbólica no qual determinados
grupos são historicamente posicionados como “outros”, cujas humanidade e
legitimidade social são constantemente questionadas. Essa lógica repercute
diretamente no campo cultural, pois influencia quais vozes são reconhecidas
como produtoras de conhecimento e quais permanecem à margem das instituições
acadêmicas, editoriais e artísticas. Assim, o apagamento histórico não se
configura apenas como um problema de memória, mas também como uma questão de
poder, representação e acesso aos espaços de legitimação.
Outro aspecto relevante é discutido por Roberto Schwarz em seu ensaio
“As ideias fora do lugar” (2000), no qual analisa como determinados modelos
importados da Europa foram aplicados ao contexto brasileiro sem considerar suas
especificidades históricas e sociais. Tal descompasso gerou uma cultura marcada
por contradições, na qual discursos de modernidade e progresso convivem com
profundas desigualdades. Nesse cenário, a criação artística frequentemente se
desenvolveu sob a influência de paradigmas externos, o que dificultou o
reconhecimento das experiências culturais locais como fontes legítimas de
reflexão e produção estética. Um exemplo ilustrativo dessa lógica pode ser
observado nos romances indianistas de José de Alencar, como O Guarani.
Nessa obra, identificam-se elementos que dialogam com a ideia de “razão
ornamental”, criticada por Gomes (1977). Em primeiro lugar, percebe-se uma
evidente europeização da figura indígena, tanto em seus traços físicos quanto
em seus valores morais. Além disso, há uma espécie de subordinação simbólica ao
colonizador. Embora o herói indígena pareça ocupar uma posição de protagonismo
narrativo, sua legitimidade depende da validação do homem branco. Assim, o
personagem indígena torna-se relevante apenas quando se coloca a serviço das
figuras associadas à colonização. Desse modo, não se trata de uma valorização
efetiva das culturas indígenas, mas de uma idealização construída a partir de
modelos europeus, como a imagem do “bom selvagem” presente em parte da tradição
literária ocidental. Essa lógica ornamental também pode ser identificada em
outras manifestações artísticas, como na pintura Independência ou Morte,
de Pedro Américo, que constrói uma cena épica e heroica da independência
brasileira, inspirada em modelos pictóricos europeus e em representações
históricas idealizadas. Ao transformar esse evento histórico em um momento
grandioso e quase mítico — assim como ocorre em representações heroicas de
bandeirantes — a pintura contribui para a criação de um imaginário nacional que
privilegia a exaltação simbólica da nação em detrimento da análise crítica de
suas contradições. Dessa forma, aspectos fundamentais da história brasileira, como
a permanência das elites agrárias e da estrutura escravista após a
independência, acabam sendo obscurecidos por uma narrativa glorificadora.
Nesse debate, o movimento modernista assume um papel fundamental. A
partir da Semana de Arte Moderna de 1922, artistas e intelectuais passaram a
defender a necessidade de romper com a dependência estética em relação à Europa
e construir uma expressão cultural autenticamente brasileira, propondo a
valorização das matrizes populares, indígenas e afro-brasileiras como elementos
constitutivos da identidade nacional. A metáfora da “antropofagia cultural”,
formulada por Oswald de Andrade, sintetiza esse projeto ao sugerir que a
cultura brasileira deveria devorar criticamente as influências externas para
transformá-las em algo próprio. Entretanto, nota-se que os países
latino-americanos enfrentam dificuldades decorrentes de sua formação colonial,
que produziu estruturas econômicas dependentes e elites culturais fortemente
orientadas por referências externas (RIBEIRO, 1983). Como resultado, muitas
manifestações culturais populares ou periféricas foram historicamente
desvalorizadas ou excluídas dos circuitos institucionais de reconhecimento. A
produção cultural contemporânea continua enfrentando o desafio de revisitar
criticamente as narrativas históricas consolidadas e ampliar os espaços de
representação. Nos últimos anos, observa-se um movimento crescente de
valorização de perspectivas historicamente marginalizadas, como a produção
artística indígena, negra e periférica, que começam a ganhar maior visibilidade
nos campos literário, acadêmico e artístico.
Torna-se necessário desenvolver políticas públicas que promovam o acesso
democrático à produção cultural, incentivem a diversidade e fortaleçam
instituições comprometidas com a preservação da memória social. O campo
educacional cumpre um papel central, pois favorece o olhar crítico e incentiva
o reconhecimento das múltiplas matrizes brasileiras. Em suma, o apagamento
histórico constitui um dos principais desafios para a produção cultural, pois
limita a diversidade de vozes e narrativas existentes. Ao reconhecer as
contribuições de diferentes grupos e revisar criticamente a construção da
identidade, torna-se possível ampliar a ideia de cultura plural, democrática e
representativa da complexidade da sociedade brasileira.
XOXO
Referências
CARNEIRO, Sueli. Racismo, sexismo e
desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2005.
GOMES, Roberto. Crítica da razão tupiniquim. Curitiba:
Criar Edições, 1977.
GONZALEZ, Lélia. A categoria
político-cultural da amefricanidade. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, n.
92/93, 1988.
RENAN, Ernest. Que é uma nação? Plural –
Revista de Ciências Sociais, São Paulo, n. 4, 1997.
RIBEIRO, Darcy. O dilema da América Latina.
Petrópolis: Vozes, 1983.
SCHWARZ, Roberto. As ideias fora do lugar.
In: Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do
romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 2000.



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