Heroes - Inio Asano (2018)

 By Cathy Scarlet



Livro: Heroes
Autora: Inio Asano
Ano de Lançamento: 2018
Gênero: Mangá, drama
País: Japão
Editora: JBC
Nota: 10


As questões sobre o bem e o mal sempre ocuparam lugar central na experiência humana, frequentemente servindo como critério para dividir indivíduos entre “vilões” e “bonzinhos”. Contudo, todas esbarram na mesma problemática: é possível distinguir o bem puro do mal absoluto? É nesse contexto que surge Heroes, obra que adquiri de forma quase casual — e que, não raramente, revela-se nas melhores leituras.

Antes de adentrar a obra, é importante destacar seu autor, Inio Asano. Nascido em Ishioka, Japão, em 1980, Asano é reconhecido por narrativas que transitam entre o realismo e o terror psicológico, frequentemente explorando a complexidade emocional de seus personagens. Seu talento inovador lhe rendeu o prêmio GX, consolidando-o como um dos nomes mais instigantes do mangá contemporâneo. Pela experiência de leitura, é possível afirmar: trata-se de um autor que provoca choque — mas um choque intelectualmente estimulante.

Inio Asano, o autor

No que diz respeito à obra, Heroes inicia-se de maneira surpreendente: com a derrota da Escuridão — um recurso que, por si só, já subverte expectativas. Após o enterro de um dos companheiros caídos, Porkuíno — aquele que havia absorvido o mal —, os heróis iniciam o retorno à sua terra natal, Urridiota.

Entre eles estão figuras de nomes sugestivos, como Sonhadóra, Duquelho, Princesa Jaburu e Sir Infantelot, além de outros personagens cujas denominações já indicam traços simbólicos relevantes para a narrativa. Esse jogo de nomes não é gratuito: ele contribui para que o leitor questione as motivações e a natureza de cada personagem.

No entanto, aquilo que se anunciava como uma jornada de retorno transforma-se gradualmente em novas batalhas. Perdidos na Floresta do Miasma, os personagens passam a enfrentar não apenas ameaças externas, mas também conflitos internos. É nesse processo que a obra revela sua dimensão mais profunda: a erosão do ideal de “bem” e a emergência do lado obscuro que habita cada um.

Embora tenha adquirido a obra pela capa — escolha que, admito, nem sempre segue critérios rigorosos —, a leitura revelou-se surpreendente pela multiplicidade de interpretações que suscita. A narrativa percorre desde questionamentos filosóficos mais sutis até uma análise sociológica que atravessa justamente as concepções de bem e mal em nossa sociedade.

Mais precisamente, a obra explora a dualidade desses polos no interior dos indivíduos, especialmente quando colocados em contato com o outro e com suas próprias subjetividades latentes. Nem mesmo aquele considerado mais sábio está imune à possibilidade de dar vazão ao egoísmo ou à perversidade diante de situações que rompem sua zona de conforto.

Ideias podem ser facilmente abandonadas diante da dor, assim como a crueldade pode emergir quando somos confrontados por atitudes que nos forçam a questionar o outro — e, por extensão, a nós mesmos. No contexto coletivo, por sua vez, observa-se a tendência à adoção de posturas rígidas, muitas vezes marcadas por uma combinação de arrogância e exercício de poder.

Em uma sociedade que opera sob máscaras, a leitura de Heroes revela-se especialmente provocadora ao expor como até os gestos mais inocentes podem dar voz ao que há de mais obscuro na condição humana. Ainda assim, mesmo em meio ao caos da existência, a obra sugere a possibilidade de reflexão — e, talvez, de um convívio mais consciente entre essas forças que nos constituem.










XOXO






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