A CONSTRUÇÃO DO “NÃO-SER” E OS MECANISMOS DE EXCLUSÃO SIMBÓLICA NO BRASIL (2026)
By Cathy Scarlet
A
autora Sueli Carneiro, em sua obra Dispositivo de racialidade: a construção
do outro como não ser como fundamento do ser, propõe uma reflexão acerca da
forma como a racialidade opera enquanto mecanismo de poder responsável pela
produção de hierarquias sociais e subjetivas no Brasil (CARNEIRO, 2023).
Dialogando com Michel Foucault, a filósofa demonstra que o racismo não se
limita a atitudes individuais ou práticas preconceituosas isoladas, mas
constitui um dispositivo presente na estrutura das relações sociais, políticas
e epistemológicas. Por conta disso, determinados grupos são historicamente
posicionados como sujeitos legítimos do saber, da humanidade e da cidadania,
enquanto outros são lançados ao lugar do “não-ser”, tendo sua humanidade
constantemente negada ou reduzida. Desse modo, tais sujeitos passam a ser
comparados a um modelo social considerado universal e superior.
A
ideia central do texto reside precisamente na compreensão de que a racialidade
produz subjetividades e organiza relações de poder que naturalizam e
institucionalizam desigualdades. O sujeito branco é colocado como referência
universal de humanidade, racionalidade e civilização, ao passo que corpos
negros são frequentemente associados à marginalidade, à subalternidade ou à
violência. Assim, o racismo deixa de ser compreendido exclusivamente como
discriminação explícita e passa a ser percebido como estrutura que atravessa
instituições, discursos e práticas cotidianas ao longo das décadas (CARNEIRO,
2023).
Uma
citação que sintetiza essa reflexão aparece quando Carneiro afirma que:
(...)
a raça será outro demarcador para a apreensão dessa verdade do sujeito; por
meio dela se evidencia o valor de cada agrupamento humano na sua diversidade
étnica/racial, à medida de sua humanidade, a normalidade de cada qual.
(CARNEIRO, 2023, p. 51)
A
escolha dessa formulação se justifica por evidenciar que a identidade dominante
não se consolida de maneira isolada, mas depende da inferiorização de outros
grupos sociais para consolidar-se como padrão normativo dominante. Em outras
palavras, a valorização de determinados sujeitos ocorre paralelamente à
desumanização simbólica e material de outros. Tal mecanismo produz efeitos
profundos na constituição da sociedade brasileira, especialmente no acesso ao
reconhecimento, à educação, à cidadania e às oportunidades sociais.
Tal
lógica pode ser observada concretamente no espaço escolar brasileiro. Embora a
educação seja frequentemente apresentada como instrumento de igualdade, muitas
instituições ainda reproduzem práticas de invisibilização cultural e
epistemológica. Nem mesmo se pode afirmar que houve uma distribuição de
recursos verdadeiramente igualitária, pois o ideal seria pensarmos a questão da
equidade como forma de equilibrar problemáticas educacionais que permanecem
historicamente cristalizadas. Outro aspecto relevante refere-se à
sub-representação de autores negros, indígenas e periféricos em currículos,
materiais didáticos e debates acadêmicos. Além disso, determinados estudantes
são constantemente atravessados por expectativas sociais inferiores
relacionadas à sua origem racial e de classe. Situações cotidianas envolvendo
vigilância excessiva, questionamentos acerca da capacidade intelectual ou
ausência de representatividade reforçam processos de exclusão simbólica que
impactam diretamente a construção da autoestima e da identidade desses sujeitos
(CARNEIRO, 2023). Isso acaba por dificultar a inserção satisfatória de
conhecimentos culturais relacionados a esses grupos nas instituições
educacionais, relegando estudantes a uma superficialidade que os impede de
avançar na compreensão da diversidade e da pluralidade existentes na sociedade.
Nesse
contexto, a reflexão proposta por Carneiro (2023) contribui para compreender
que combater o racismo exige mais do que condenar atitudes preconceituosas
individuais. É necessário reconhecer os mecanismos históricos e institucionais
que sustentam desigualdades e silenciam determinadas experiências sociais. A
escola e a universidade possuem papel fundamental nesse processo, pois podem
tanto reproduzir estruturas de exclusão quanto favorecer práticas críticas
voltadas ao reconhecimento da pluralidade cultural e epistemológica brasileira.
Uma
questão que permanece aberta para reflexão consiste em compreender até que
ponto as instituições educacionais brasileiras estão realmente dispostas a
romper, de modo concreto e efetivo, com modelos de conhecimento historicamente
eurocentrados e excludentes. Embora avanços tenham ocorrido nas últimas
décadas, ainda existe grande resistência à valorização efetiva de perspectivas
negras, indígenas e periféricas na produção do saber.
Como
microação possível, seria viável desenvolver, no contexto escolar, atividades
de leitura e debate envolvendo autores negros e indígenas brasileiros,
articulando literatura, filosofia e realidade social contemporânea. Em poucas
semanas, essa prática poderia estimular estudantes a refletirem criticamente
sobre questões relacionadas à representação, ao pertencimento e à desigualdade
social. Tal proposta aproxima-se da perspectiva defendida por Paulo Freire
(1967), segundo a qual a educação deve favorecer consciência crítica e
transformação social. Além disso, a medida contribuiria para a ampliação do
repertório cultural e da consciência social no ambiente educacional, aspecto
fundamental em um contexto no qual a informação, embora abundante, continua
mediada por interesses ideológicos que perpetuam perspectivas eurocêntricas e
práticas discriminatórias historicamente enraizadas.
XOXO
REFERÊNCIAS
CARNEIRO,
Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como
fundamento do ser. São Paulo: Zahar, 2023.
FREIRE,
Paulo. Educação como prática da liberdade. São Paulo: Paz e Terra, 1967.



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