O Morro dos Ventos Uivantes (2026) - Filme
By Cathy Scarlet
FICHA TÉCNICA
Filme: O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights)
Diretor: Emerald Fennell
Ano: 2026
Duração: 136 minutos
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Algumas adaptações conseguem
surpreender os espectadores menos adeptos à leitura das obras originais. Não
apenas por aproximá-los daquela trama, mas também por incentivá-los a conhecer
melhor aquele universo. Por mais que alguns diretores e suas longas-metragens
se esforcem nessa tarefa, nem todos conseguem atingir a excelência de abordagem
presente nos autores e em suas obras. No entanto, há ainda aqueles que anseiam
superar a mera adaptação e ousam ir além da pena que deu vida à história. Nessa
perspectiva, pretendo oferecer meu ponto de vista sobre o lançamento: a
adaptação livre da obra de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë.
A história mantém os
conhecidos protagonistas Catherine Earnshaw, Heathcliff e Edgar Linton, além de
Nelly, com suas respectivas “funções” dentro da trama. Já alguns personagens,
embora também apareçam na versão original, tiveram suas construções modificadas
— como o Sr. Earnshaw, cuja participação se tornou maior com a ausência do
antagonista e de seu filho presentes em outras versões, e Isabella Linton, que
passou a ser pupila de Edgar.
Tudo se inicia com o
enforcamento de um preso em praça pública, sob olhares curiosos — alguns até
mesmo extasiados diante da cena tenebrosa. No meio da multidão, encontravam-se
Nelly e a pequena Catherine. Esta permanecia vidrada naquele espetáculo de sórdida
conotação sexual, elemento que, posteriormente, acaba diluindo-se na essência
do enredo como um todo.
Alguns elementos do original
se mantêm, como o temperamento ambicioso e infantil de Catherine e a rebeldia
obsessiva de seu irmão de criação. Adicionaram à figura paterna uma hostilidade
opressiva e uma embriaguez que envergonham a filha, além de uma Nelly mais
esférica enquanto personagem, ampliando o significado daquela cena tão
emblemática de Juliette Binoche, em que diz: “Eu sou Heathcliff” — elemento que
ficou de fora desta vez. Aliás, a construção de Nelly acaba fazendo sentido
dentro do cenário que a própria autora nos apresentou em pleno século XIX.
O amor dos protagonistas se
torna mais palpável, mas assume uma nuance sexual à qual ambos acabam cedendo.
Heathcliff acredita, inicialmente, que o filho que a amada espera é seu.
Decepcionado, mas não menos resoluto em manter o romance, ele se depara com a
rejeição de Cathy, que percebe quão longe o amado seria capaz de chegar para
tê-la: matar Linton. Como vingança, ele se aproxima de Isabella e a degrada das
piores maneiras.
Ainda apaixonado, Heathcliff
tenta se aproximar de Cathy e lhe envia diversas cartas. Contudo, Nelly as
intercepta e as queima. Sem saber de nada, a esposa de Edgar se enclausura no
quarto sem se alimentar, o que compromete sua saúde e a do bebê, que acaba
morrendo dentro dela. Catherine chega a alertar Nelly sobre o ocorrido, porém é
ignorada. Quando menos esperavam, o pior acontece e todos precisam enfrentar as
consequências da paixão doentia e da vingança que predominam as relações em O
Morro dos Ventos Uivantes.
Apesar de ser uma adaptação
que opta por desviar o curso de algumas situações cruciais e intensificar
outras, numa tentativa de trazer mais profundidade à narrativa, ainda falha na
maneira de lidar com esse universo complexo. Trabalhar com o único romance de
Emily Brontë não é tarefa simples, sobretudo quando se busca enfatizar
excessivamente as questões sexuais, reduzindo as personagens à mera
concretização carnal e à manutenção desse desejo.
Tal abordagem não conseguiu
prender minha atenção, principalmente pela diminuição da intensidade da
personalidade errática de Catherine e pela suavização da figura de Heathcliff,
tornando-o sutil demais para o impacto que poderia provocar.
Embora os protagonistas e os
coadjuvantes — como os Lintons e a ausência de Hindley — tenham deixado a
desejar na presença que poderiam ter assumido ao longo dos momentos mais
cruciais, outra personagem me impressionou profundamente: Nelly. A expansão de
sua figura para o antagonismo pode soar surpreendente — e até mesmo de mau
gosto para alguns —, mas me pareceu verossímil, especialmente pelo modo como
Catherine a trata. Em algum momento, parecia inevitável que houvesse uma
retaliação proporcional a tantas humilhações.
Em suma, trata-se de uma
adaptação livre que poderia ter alcançado um patamar elevado, sobretudo
contando com grandes nomes em seu elenco, como Margot Robbie, Jacob Elordi e
Martin Clunes. Entretanto, a ambição em provocar frisson através da tensão
erótica não conseguiu produzir muito além de desconforto e pouca intensidade
dramática. Recomendo pela experiência inusitada, mas não os enganarei dizendo
que fui surpreendida. Há momentos interessantes, porém o resultado ficou muito
aquém do que se esperaria — e do que poderia alcançar — em termos de paixão e
intensidade emotiva. Acima de tudo, afastar-se demasiadamente da essência de
uma história como a criada por uma das irmãs Brontë é uma ousadia da qual nem
todos podem se dar ao luxo.
XOXO
REFERÊNCIA DA IMAGEM
https://pt.wikipedia.org/wiki/Wuthering_Heights_(filme_de_2026)



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