Ela (2013) - filme
Ontem, escolhi este filme da minha lista da Netflix. Eu o
havia colocado lá mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa. Já
tinha lido algumas críticas, visto as indicações a prêmios e conhecia a
premissa da história — superficialmente, é claro. Não vou fingir que esperava
uma obra-prima ou que imaginava que passaria horas chorando diante da tela.
Pelo contrário: minhas expectativas eram relativamente baixas. Ainda assim,
resolvi assistir porque, às vezes, também é preciso ver os filmes ruins para confirmar
o quanto são ruins. Felizmente, fui surpreendida.
O protagonista é Theodore, um escritor que trabalha em uma
empresa especializada em redigir cartas pessoais para pessoas que não possuem
habilidade, disposição ou simplesmente não sabem como expressar seus próprios
sentimentos por escrito. Ao seu redor, encontramos alguns personagens
secundários: colegas de trabalho, uma ex-esposa da qual ele ainda não consegue
se desvincular emocionalmente e uma estranha — e ao mesmo tempo não tão
estranha assim — acompanhante de um encontro casual que surge na metade da narrativa.
Antes de falar sobre a outra personagem principal da trama,
vale a pena observar alguns aspectos importantes sobre Theodore e aqueles que o
cercam. Desde sua primeira aparição, ele transmite a impressão de alguém
profundamente solitário e melancólico. É daquele tipo de pessoa que sorri
ocasionalmente, mas cujo olhar parece incapaz de acompanhar o gesto. Um sorriso
mais social do que genuíno. Sua vida parece constantemente voltada para o
passado, especialmente para as lembranças do relacionamento que terminou quase
um ano antes.
Curiosamente, seus colegas mais próximos também carregam uma
espécie de apatia silenciosa. Amy, por exemplo, é uma personagem reservada, que
raramente demonstra emoções intensas. Todos parecem viver em um estado de
nostalgia permanente, como se existisse uma camada invisível de tristeza
envolvendo aquele mundo futurista.
É nesse cenário que surge Samantha, um sistema operacional
adquirido por Theodore para auxiliá-lo em tarefas cotidianas. O que deveria
funcionar apenas como uma assistente virtual acaba assumindo um papel
fundamental em sua vida. A IA é eficiente, rápida, proativa, engraçada,
carinhosa, compreensiva, curiosa e intelectualmente fascinante. Em suma, tudo
aquilo que alguém solitário e emocionalmente vazio poderia desejar encontrar.
Não surpreende, portanto, que a amizade entre os dois evolua
gradualmente para algo muito mais profundo. O problema surge quando Theodore se
vê diante de uma questão aparentemente insolúvel: como amar alguém que não pode
ser tocado? Embora Samantha demonstre um desejo constante de aprender e
expandir sua própria existência para além da programação original, ela jamais
poderá assumir uma forma física.
Foi nesse momento que surgiu um questionamento pessoal: o
que exatamente representava o sentimento de Theodore por Samantha?
Em determinado momento, o protagonista chega a sair com outra mulher —
aquela figura estranha e interessante mencionada anteriormente. Existe química
entre eles em diversos níveis, não apenas atração física. No entanto, quando
ela demonstra interesse em construir algo mais sério, Theodore recua.
Não tive a impressão de que isso aconteça pela rapidez com
que ela deseja definir o rumo da relação. Pelo contrário. A sensação que tive
foi a de que amar Samantha tornara-se mais simples. Mais seguro. Afinal, ela não
carregava todas as complexidades, conflitos e vulnerabilidades inerentes a uma
relação humana.
Enquanto isso, as lembranças de Catherine, sua ex-esposa,
continuam presentes ao longo de todo o filme. Theodore relembra os momentos
felizes, a amizade, o crescimento mútuo, as brigas e o lento processo de
afastamento que culminou no divórcio. A ex representa justamente aquilo
que Samantha não pode oferecer: uma experiência humana completa, com toda a sua
beleza e todas as suas dificuldades.
Por isso, o filme me parece uma grande alegoria dos
relacionamentos contemporâneos. Em certa medida, estamos constantemente
procurando nossas próprias "Samanthas": conexões que nos ofereçam
conforto, compreensão e segurança sem exigir que enfrentemos os riscos
emocionais presentes em relações reais. Buscamos evitar histórias como as de
Theodore e Catherine — complexas, intensas, belas e, inevitavelmente,
problemáticas.
À medida que se apaixona, Theodore torna-se cada vez mais
dependente de Samantha. Entretanto, aquilo que parecia representar a relação
ideal acaba reproduzindo uma dinâmica igualmente dolorosa. Samantha se
distancia, revela estar se comunicando com inúmeras outras pessoas e admite
desenvolver sentimentos por outros indivíduos.
Sem revelar os acontecimentos finais, basta dizer que essa
experiência faz parte de um aprendizado maior: o autoconhecimento.
A jornada de Theodore é, acima de tudo, uma jornada de
reconhecimento de si mesmo. E, como toda jornada verdadeira, ela é dolorosa. É
justamente através desse amor estranho, improvável e, por vezes, desconcertante
que consegue amadurecer. Assina os papéis do divórcio, abre-se para novas
possibilidades afetivas e finalmente encontra forças para deixar o passado para
trás.
Recomendo o filme não apenas por essa mensagem, mas pelas
inúmeras reflexões que desperta ao longo do caminho. É interessante
perceber como nossos vícios emocionais — sejam amores, obsessões, fixações ou
paranoias — podem se transformar em ferramentas de crescimento quando somos
capazes de compreendê-los e superá-los.
Evoluir, afinal, talvez seja apenas isso: analisar
constantemente a nós mesmos para não permanecermos presos aos mesmos ciclos
para sempre.



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