Sobre os ossos dos mortos - Olga Tokarczuk (2021)

 By Cathy Scarlet



Livro: Sobre os ossos dos mortos
Autora: Olga Tokarczuk
Ano de Lançamento: 2009
Gênero: Romance, ficção contemporânea
País: Polônia
Editora: Todavia

Nota: 10


Em alguns momentos, bate aquela vontade de experimentar algo novo: uma comida diferente, um lugar inusitado ou, por que não, uma leitura completamente fora da nossa zona de conforto.

No meu caso, resolvi escolher mais um livro de forma totalmente aleatória e acabei me deparando com uma obra que me surpreendeu não apenas pela narrativa, mas, principalmente, pela abordagem que assume ao longo de suas páginas.

Antes de falarmos sobre ela, vale a pena conhecer um pouco de sua autora: Olga Tokarczuk.

Filha de professores, a escritora nasceu na Polônia, em 1962. Contudo, engana-se quem pensa que ela é apenas romancista — profissão que, por si só, já exige enorme sensibilidade, imaginação e dedicação. Tokarczuk também é ensaísta, ativista, roteirista e intelectual.

Até meados da década de 1990, atuou como psicoterapeuta, experiência que ajuda a compreender a maneira como constrói seus personagens e as reflexões psicológicas e existenciais presentes em sua literatura.

Em 2018, foi agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura, reconhecimento que consolidou internacionalmente uma trajetória marcada pela originalidade e pela profundidade de sua escrita.

Entre as características mais marcantes de sua obra está a combinação entre elementos míticos, reflexões filosóficas e críticas sociais, frequentemente utilizadas para questionar nossa forma de compreender a realidade, a natureza e a própria condição humana.


Olga Tokarczuk


Discutirei aqui seu romance de forte viés existencial: Sobre os Ossos dos Mortos, publicado em 2009.

A história se passa na região rural de Kłodzko Valley, localizada no sudoeste da Polônia e estendendo-se até parte da República Tcheca. Os acontecimentos giram em torno da senhora Janina Dusheiko (que, a propósito, detesta ser chamada pelo nome de batismo) e de sua profunda relação com os animais.

Trata-se de uma mulher solitária que acaba de perder suas Meninas — como carinhosamente chamava suas cadelas — e que divide sua rotina entre o ensino da língua inglesa e o trabalho como zeladora de casas cujos proprietários raramente aparecem na região.

Outro aspecto marcante de sua personalidade é a paixão pela astrologia. Dusheiko está longe de ser uma simples curiosa: dedica-se seriamente aos mapas astrais e procura compreender os acontecimentos da vida por meio da influência dos astros.

Seu pequeno círculo de amizades é formado por Esquisito, seu vizinho; Dísio, com quem compartilha a admiração pela poesia de William Blake — de um de seus poemas, aliás, deriva o título do romance —; Boros, um entomologista que se hospeda por algum tempo em sua casa; e Boas Novas, funcionária de um brechó da cidade.

Os apelidos dessas personagens — assim como os de tantas outras presentes na narrativa — são atribuídos pela própria Dusheiko, quase sempre a partir de alguma característica física, comportamento ou traço marcante de personalidade.

Tudo começa com a morte de Pé Grande, um caçador da região. Avisada por Esquisito de que algo parecia errado, já que a cadela do homem não parava de latir, Dusheiko o acompanha até a residência do vizinho, onde encontram seu corpo. A causa da morte teria sido um engasgo provocado por um osso de corça.

A partir desse momento, a protagonista passa a defender uma hipótese considerada absurda pelos demais moradores: a de que o companheiro do animal abatido teria se vingado do caçador.

Ainda na cena do crime, Dusheiko encontra uma fotografia que parece abalá-la profundamente e decide guardá-la consigo.

Com o passar do tempo, outras mortes misteriosas acontecem. A senhora continua sustentando a teoria de que os animais estariam retaliando aqueles que os maltrataram em vida: Pé Grande, o Comandante, Víscero, o Presidente e o Padre Farfalhar.

Naturalmente, suas declarações passam a despertar desconfiança. Além de insistir nessa hipótese perante os moradores, Dusheiko envia cartas à polícia defendendo seu ponto de vista. A proximidade que mantém com as circunstâncias dos crimes acaba fazendo com que ela própria seja vista como suspeita.

Felizmente, conta com o apoio de seus amigos e é libertada antes do prazo máximo previsto para sua detenção. Ainda assim, sua indignação diante da violência praticada contra os animais e suas constantes críticas ao desprezo demonstrado pelo padre em relação à natureza fazem crescer, entre os habitantes da cidade, as dúvidas sobre sua sanidade.

Em determinado momento, Dísio faz uma descoberta que o deixa profundamente estarrecido. Juntamente com os demais amigos de Dusheiko, ele se depara com uma revelação capaz de modificar completamente a compreensão dos acontecimentos até então.

Mais do que um romance policial, Sobre os Ossos dos Mortos apresenta reflexões poderosas sobre a relação do ser humano com a natureza, com os animais e com o mundo que o cerca.

Acima de tudo, leva-nos a questionar onde termina a justiça e onde começa a vingança — reflexão potencializada pela escolha de uma narradora em primeira pessoa cuja percepção da realidade se revela, em diversos momentos, pouco confiável.

Abaixo, elenco algumas das reflexões que considero fundamentais para a análise desta obra fascinante:


Ø  “De alguma forma as pessoas como ela, que dominam a escrita, costumam ser perigosas”. p. 54.

Ø   “É preciso falar às pessoas o que elas devem pensar. Não tenho outra saída. Do contrário, uma outra pessoa fará isso”. p. 144.

 

O primeiro trecho nos remete à ambiguidade do domínio da escrita. Mais do que um simples instrumento de comunicação, ela, intimamente ligada ao letramento, constitui uma poderosa ferramenta de persuasão, capaz de mobilizar ações, difundir ideologias e construir imagens que influenciam a maneira como pensamos, agimos e existimos no mundo.

Trata-se de um recurso que pode conduzir à construção do conhecimento, ao desenvolvimento da consciência crítica e à transformação social. Contudo, ao longo da história, também foi utilizado para manipular, controlar e legitimar interesses de grupos e indivíduos.

Um exemplo contemporâneo são as fake news, capazes de mobilizar milhares de pessoas a adotarem posicionamentos e modos de vida contrários a evidências científicas ou a informações verificadas, impulsionadas por discursos persuasivos e pela disseminação irresponsável de conteúdos nos meios digitais.

Ter domínio das palavras e saber utilizá-las estrategicamente significa possuir um enorme poder: o de manipular consciências ou, em sentido oposto, contribuir para libertá-las por meio da informação, da reflexão e da emoção.

 

Ø   “E que o mundo é uma grande rede, é um todo único, e não existe nada que esteja isolado. Cada fragmento do mundo, até o menor deles, está interligado com outros através de um complexo cosmos de correspondências (...)”. p. 59.

 

Tudo ao nosso redor parece possuir um propósito, e dificilmente uma ação deixa de produzir consequências, sejam elas imediatas ou perceptíveis apenas muito tempo depois. Até mesmo os acontecimentos aparentemente mais insignificantes acabam nos levando a refletir sobre suas causas, seus desdobramentos e os sentidos que podem assumir ao longo da trajetória das personagens.

Ao final, deparamo-nos com a percepção de que as coincidências são muito mais complexas e interligadas do que costumamos imaginar. E é justamente essa ideia que a própria obra parece corroborar.

 

Ø  “Ela (a dor) me lembra, cruel, que sou composta de partículas de matéria que morrem a cada segundo”. p. 65.

 

Somos fruto da própria existência, mas não somos imortais. Essa constatação pode parecer óbvia; ainda assim, nem sempre conduz nossas escolhas. Muito pelo contrário: frequentemente vivemos como se o amanhã fosse uma certeza, entregando-nos à imprudência e ignorando os limites da própria condição humana.

Entretanto, o tempo bate inevitavelmente à nossa porta, trazendo consigo o envelhecimento e as consequências — muitas vezes inevitáveis — das decisões que tomamos ao longo da vida.

 

Ø  “E talvez o próprio Blake, se estivesse vivo, diria, ao ver tudo isso, que ainda havia lugares no universo não tomados pela decadência, o mundo não virou do avesso e o Éden ainda existe. Ali o ser humano não age de acordo com as regras da razão, estúpidas e rígidas, mas segundo o coração e a intuição”. p. 82 e 83.

 

Embora nos deparemos constantemente com a finitude da existência e com o pessimismo que, por vezes, parece envolver os dias e os acontecimentos ao nosso redor, vale sempre a pena buscar o lado luminoso da vida, das pessoas e dos lugares.

Onde hoje há guerra, um dia já existiu um lugar de paz — e, quem sabe, possa voltar a existir.

Até mesmo aquele vizinho que tanto nos incomoda carrega uma história, emoções, medos e sonhos que desconhecemos. As pessoas são sempre mais complexas do que conseguimos enxergar à primeira vista.

Da mesma forma, o pior momento de nossas vidas não permanece para sempre. O tempo transforma circunstâncias, ameniza dores e nos oferece novas possibilidades.

No fim, tudo e todos deixam algum aprendizado. Cabe a nós decidir se estamos dispostos a enxergá-lo.

 

Ø  “Não suporto isso nas pessoas – essa ironia fria. É uma postura muito covarde; tudo pode ser ridicularizado, desrespeitado, não é preciso se envolver em nada ou estabelecer qualquer laço”. p. 87.

 

O pior lado do ser humano não está propriamente em seus defeitos — afinal, todos somos imperfeitos. O que realmente nos preocupa é a capacidade de reduzir o outro à insignificância, anulando sua humanidade, sua história e sua dignidade.

A cada dia, deparamo-nos com manifestações de pouca consideração e empatia em discursos, comportamentos e posicionamentos que ignoram fatos, contextos e as diferentes realidades sociais. Em muitos casos, abraçam-se identidades ou discursos de forma acrítica, transformando divergências em combustível para o preconceito, o ódio e a intolerância.

As redes sociais evidenciam esse fenômeno de maneira particularmente intensa. Nelas, multiplicam-se mensagens que desejam a morte, a destruição ou a aniquilação de indivíduos, grupos e povos inteiros. Também se observa a disseminação de informações falsas ou não verificadas, frequentemente compartilhadas sem qualquer preocupação em consultar fontes confiáveis ou aprofundar o conhecimento sobre os temas em debate.

Mais do que nunca, torna-se indispensável cultivar o pensamento crítico, a responsabilidade diante da informação e, sobretudo, a empatia. Discordar faz parte da convivência democrática; desumanizar o outro, porém, jamais deveria ser considerado um caminho legítimo.

 

Ø  “Pensei, então, que toda a morte provocada injustamente merece algum tipo de difusão pública. Até mesmo a morte de um inseto. Uma morte despercebida torna-se duplamente escandalosa”. p. 147.

 

Diversas reflexões sobre a morte atravessam a obra. Esta, em especial, leva-nos a considerar a importância até mesmo do organismo mais simples, pois cada forma de vida desempenha um papel essencial no delicado equilíbrio da existência.

Todo ser possui sua função dentro do grande ciclo vital ao qual pertencemos. Por isso, quando nos deparamos com notícias sobre espécies ameaçadas de extinção, percebemos de maneira ainda mais concreta o quanto sua presença é indispensável para os ecossistemas, para as cadeias alimentares e para a manutenção da própria biodiversidade.

Ao voltarmos o olhar para nós mesmos, a reflexão permanece igualmente válida.

Cada indivíduo ocupa um lugar singular no mundo, ainda que sua passagem por ele seja breve.

A obra nos convida a compreender que a morte jamais deveria ser banalizada ou tratada com indiferença. Toda perda reverbera muito além daquele que parte. Ela permanece na dor daqueles que ficam, na ausência que se instala silenciosamente e nas lembranças construídas ao longo de uma vida compartilhada.

Cada pessoa que encontramos carrega um universo invisível de pensamentos, sonhos, medos, desejos e expectativas aos quais jamais teremos acesso completo. Podemos apenas imaginá-los — e é justamente essa complexidade que torna cada existência única e insubstituível.

Talvez seja essa uma das mais belas reflexões do livro: somos importantes, mesmo que o tempo, pouco a pouco, cubra com suas areias os vestígios de nossa passagem pelo mundo.

 

Ø  “A presença de Boros me lembrou como era morar com alguém. E como isso pode ser constrangedor. E o quanto nos desvia de nossos próprios pensamentos e nos distrai. Como a outra pessoa começa a nos irritar não por fazer algo irritante, mas pelo simples fato de estar ali”. p. 150.

 

Conviver com outras pessoas pode ser uma tarefa árdua e, muitas vezes, cansativa. Não é difícil compreender por quê: opiniões divergem, pequenas picuinhas surgem, sentimentos que imaginávamos controlar afloram e acabam revelando as entranhas mais profundas da natureza humana. Em outras ocasiões, simplesmente nos damos conta de que socializar também exige energia.

Por isso, a solidão deixa de representar apenas isolamento e passa a constituir uma necessidade legítima de preservação da saúde mental. Afastar-se temporariamente do convívio pode ser uma forma de reorganizar pensamentos, aliviar tensões e retornar às relações com mais disposição e equilíbrio.

Quando observo casais vivendo em constante estado de conflito, compreendo ainda mais a importância desse espaço individual, algo que se torna naturalmente mais difícil quando se compartilha o mesmo teto.

Ainda assim, acredito que momentos de recolhimento deveriam fazer parte da rotina das famílias. Eles ajudam a aliviar o desgaste provocado pela convivência contínua e pelas atribulações individuais que, muitas vezes, acabam transbordando para as relações, transformando o outro no destinatário de frustrações que não lhe pertencem.

Espaço e solidão não são sinais de afastamento afetivo nem aspectos irrelevantes. Pelo contrário: podem representar condições fundamentais para manter vínculos mais leves, saudáveis e menos conflituosos.

Afinal, muitas mágoas nascem não da ausência de amor, mas do cansaço acumulado, da falta de pausa para refletir e da dificuldade de reconhecer os próprios limites antes de projetá-los sobre quem está ao nosso lado.

 

Ø  “Para as pessoas de minha idade, os lugares que realmente amamos e aos quais um dia pertencemos já não estão mais lá”. p. 153.

 

A idade torna-se um peso quando mantemos o olhar preso àquilo que ficou para trás e nos recusamos a seguir adiante, permanecendo ancorados em um passado que já não pode ser revivido.

Quando olhava para meu avô, já com mais de noventa anos, perguntava-me como ele se sentia ao recordar que muitos de seus amigos e conhecidos haviam partido; que os lugares onde vivera ou que conhecera provavelmente já não existiam da mesma maneira; que comportamentos, costumes e relações familiares haviam se transformado profundamente — e, no caso da minha família, para extremos que, por vezes, me fazem lembrar conflitos bélicos conhecidos pela humanidade.

Nunca ousei verbalizar esses pensamentos. Temia sua reação, sobretudo porque ele se tornara cada vez mais introspectivo nos últimos anos de vida.

Ainda hoje continuo me fazendo essas mesmas perguntas, sem jamais ter obtido respostas diretas.

Resta-me, então, voltar o olhar para mim mesma.

A cada ano, a cada década, despedimo-nos de alguma coisa.

Despedimo-nos de fases da vida, de animais de estimação, de pessoas queridas, de lugares que marcaram nossa infância, de crenças que alimentávamos sobre o mundo e até de versões de nós mesmos que deixamos para trás.

Estamos constantemente nos separando de algo que, em algum momento, nos completou.

Nem toda despedida é fácil. Mas quase todas deixam rastros de aprendizado, amadurecimento e transformação em nossa memória, em nossa sensibilidade e na maneira como passamos a compreender a vida.

Apesar de inevitável, a velhice talvez nos imponha a despedida mais dolorosa de todas: a de nós mesmos.

Constituir-se no mundo é um processo repleto de avanços e retrocessos. Ainda assim, seguimos fortalecidos pela esperança de um novo dia e pela possibilidade de continuar escrevendo nossa própria história.

Mesmo sabendo que nossa existência é finita, há algo que permanece.

Nossa essência continua viva nas lembranças daqueles que caminharam ao nosso lado, nas palavras que dissemos, nos gestos que praticamos e nas marcas que deixamos ao longo do caminho.

Talvez não possamos recuperar aquilo — ou aqueles — que partiram.

Mas ainda podemos escolher construir uma presença que permaneça.

Uma essência capaz de despertar orgulho, afeto e sorrisos saudosos naqueles que, um dia, seguirão carregando consigo um pedaço de quem fomos.

 

Ø  “Eu não conseguia deixar de pensar que aqueles que usam a palavra ‘verdade’, mentem”. p. 174.

Ø  “Aliás, acho que a psique humana se constituiu para nos incapacitar de enxergar a verdade”. p. 208.

 

O maior erro que alguém pode cometer é acreditar cegamente naquilo que ouve sem buscar informações que corroborem a suposta "verdade".

Somos criaturas propensas a acreditar. Contudo, como também somos marcados pela dúvida e pela contradição que caracterizam a existência humana, carregamos igualmente a capacidade de desconfiar.

A simples coexistência dessas duas características já deveria nos impulsionar à busca constante por informações. Em muitas circunstâncias, isso realmente acontece. Ainda assim, tenho a impressão de que, nos últimos tempos, esse espírito investigativo tem se enfraquecido. Muitos escutam, repetem e aceitam qualquer afirmação como verdade absoluta, sem questioná-la.

Cada vez mais me convenço de uma realidade incômoda: dificilmente existe apenas um lado da mesma moeda ou uma única versão dos fatos.

Certa vez, disse aos meus alunos que a globalização nos oferece um enorme quebra-cabeça de informações. Cabe a nós reunir as peças, comparar diferentes fontes e construir uma compreensão mais ampla da realidade.

Nem todos compreenderam a analogia naquele momento, mas continuo acreditando nela. É exatamente assim que o conhecimento se constrói: por meio da comparação, da investigação e do diálogo entre diferentes perspectivas.

Entretanto, essa responsabilidade é nossa. Precisamos vencer a preguiça intelectual que, muitas vezes, nos impede de aprofundar a investigação.

A verdade exige esforço.

Já a mentira costuma ser muito mais conveniente: encontra-se em toda parte e raramente exige de nós qualquer trabalho para ser aceita.

 

Ø  “Já não existe natureza natural (...). Já é tarde demais. Os mecanismos naturais foram desequilibrados e agora é preciso manter tudo isso sob controle para evitar uma catástrofe”. Fala de Olho de Lobo, p. 181.

Ø  “Sabe, às vezes tenho a impressão de que vivemos num mundo que nós mesmos projetamos. Determinamos o que é bom e o que é ruim, desenhamos mapas de significados... E depois, durante a vida inteira, lutamos contra aquilo que concebemos”. p. 207.

 

Somos tolos ao acreditar que exercemos pleno controle sobre aquilo que nos cerca. A natureza é um dos maiores exemplos dessa ilusão. Ainda assim, nós, seres humanos, insistimos na arrogância de imaginar que somos capazes de dominá-la. Entretanto, a cada dia nos deparamos com acontecimentos que demonstram exatamente o contrário.

A verdadeira catástrofe, a meu ver, ocorre quando tentamos conter a força monumental da natureza ou submetê-la à nossa vontade, ignorando a própria fragilidade diante da grandiosidade de um equilíbrio que existe muito antes de nós. Somos apenas parte de um sistema muito maior, constantemente moldados por circunstâncias que, não raro, decorrem da nossa própria ganância e da falta de respeito com que tratamos o mundo ao nosso redor.

Paradoxalmente, é justamente em nome da nossa racionalidade que, tantas vezes, agimos de forma profundamente irracional e irresponsável. Culpamos o universo, o destino ou a própria natureza pelas consequências de ações que, em grande medida, nós mesmos provocamos. Somos responsáveis pela degradação ambiental, pela extinção de inúmeras espécies, pelos conflitos armados e por parte significativa das transformações climáticas que hoje desafiam nossa própria sobrevivência.

Criamos um sistema no qual a culpa é sempre atribuída a terceiros, enquanto evitamos reconhecer nossa participação nos problemas que iniciamos, alimentamos e perpetuamos por interesses frequentemente mesquinhos.

Enquanto não assumirmos nossa responsabilidade diante da crise ambiental e social que ajudamos a construir, dificilmente conseguiremos interromper o processo de degradação que ameaça não apenas a natureza, mas a própria continuidade da vida na Terra.

 

 

Ø  “Pela primeira vez estava numa prisão inteiramente material e foi uma experiência muito difícil”. p. 201.

Ø  “Não consegui me conformar que os policiais tivessem revistado minha casa e passei a sentir sua presença em toda parte...”. p. 203.


Quando falamos, por exemplo, sobre ditaduras, as reações costumam ser as mais variadas. Chegamos, inclusive, ao ponto de encontrar pessoas que negam ou relativizam sua existência e seus impactos.

Entretanto, aqueles que viveram sob esses regimes conhecem, de maneira direta, o peso da ausência de liberdade, dos direitos cerceados, da vigilância constante, do medo e da insegurança que recaem sobre famílias inteiras. Da mesma forma, documentos, pesquisas, jornais da época e relatos de sobreviventes nos permitem compreender a dimensão das violações cometidas por diferentes governos autoritários ao longo da história.

Ainda hoje, observa-se uma preocupante tendência de minimizar essas experiências, relativizando o sofrimento de quem perdeu familiares, amigos, a liberdade ou a própria dignidade em decorrência de perseguições, torturas, prisões e exílios forçados.

Mais inquietante ainda é ver pessoas classificarem, de maneira simplista, todos os perseguidos políticos como "baderneiros" ou "terroristas", ignorando a complexidade histórica desses acontecimentos e as inúmeras trajetórias individuais envolvidas. Essa inversão da memória histórica me preocupa profundamente.

Preocupa porque parece transformar-se, pouco a pouco, em um hábito social.

Onde foi parar nossa curiosidade? Nossa disposição para investigar, refletir e confrontar diferentes fontes antes de formar uma opinião?

Teríamos abandonado o pensamento crítico nos púlpitos, nas redes sociais ou nos palanques eleitorais?

 

Ø  “Conduza seu arado sobre os ossos dos mortos...”. p. 213.

Ø  “É possível aceitar coisas banais que provocam apenas um desconforto, mas não uma crueldade sem sentido e onipresente”. p. 238.

 

Em diálogo com a reflexão anterior, vale considerar também a História como um importante norte para a interpretação desta obra.

Quando observamos as nações dentro de um mundo cada vez mais globalizado, deparamo-nos constantemente com a ideia de progresso. Muitas vezes, porém, esse conceito é compreendido de maneira equivocada, como se avançar significasse apagar o passado, abandonar as raízes que nos constituem ou seguir adiante mesmo sobre os corpos daqueles transformados em "inimigos".

É justamente essa lógica que parece sustentar muitos discursos de hegemonia e de poder.

A partir do momento em que a dor do outro nos passa despercebida; quando consideramos uma morte mais lamentável do que outra; quando selecionamos, previamente, quem merece nossa compaixão em conflitos marcados por inúmeras perdas humanas, precisamos nos perguntar se não estamos relativizando a crueldade em nome de princípios ideológicos que, pouco a pouco, nos desumanizam.

Talvez seja o momento de refletirmos sobre nossas próprias concepções de realidade, humanidade, solidariedade e empatia.

Não apenas em relação aos grandes acontecimentos históricos, mas também dentro de nossas próprias famílias.

Quantas delas não se desintegram pela ganância, pela inveja ou por mágoas alimentadas durante anos?

Com frequência, passamos por cima daqueles que compartilham nossa própria história com uma facilidade assustadora. Da mesma forma, não são raras as situações em que alguém prejudica colegas de trabalho, espalha calúnias ou tenta obter vantagens às custas do sofrimento alheio.

Compadecemos-nos da dor de alguns, enquanto contribuímos para a dor de outros.

Estendemos a mão a determinadas pessoas, mas ignoramos justamente quem mais necessita de acolhimento ao nosso lado.

Se nossa empatia depende de quem sofre, que tipo de humanidade estamos construindo?

E, mais importante ainda, que legado pretendemos deixar para as gerações futuras?

Por essas e tantas outras reflexões, recomendo fortemente a leitura desta obra polonesa.

Espero que ela provoque em vocês o mesmo que provocou em mim: o desejo de repensar nossa relação com a natureza, com a memória, com a justiça e, sobretudo, com aquilo que nos torna verdadeiramente humanos.

Porque talvez nossa maior evolução não esteja no progresso tecnológico, econômico ou político, mas na capacidade de reconhecer a humanidade do outro — e de preservá-la.

 

 

 

 

 



XOXO

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS:

https://www.nagroda-zulawskiego.pl/o-nagrodzie/laureaci/zlote-wyroznienie-2023-olga-tokarczuk-za-powiesc-empuzjon

https://en.wikipedia.org/wiki/Olga_Tokarczuk


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