Pensamento político e democracia no Brasil: Tensões, desafios e possibilidades (2026)
By Cathy Scarlet
Ao
se analisar a democracia brasileira contemporânea, observa-se que ela enfrenta
desafios estruturais que exigem uma leitura plural das matrizes do pensamento
político moderno e contemporâneo, sendo estas o liberalismo, o socialismo, a social-democracia,
o republicanismo e a democracia. Todas oferecem ferramentas analíticas
relevantes, mas também apresentam limites quando confrontadas com a
complexidade histórica, social e institucional do nosso país.
O
liberalismo contribuiu de forma decisiva para a consolidação dos direitos
individuais, do constitucionalismo e das garantias civis, pilares fundamentais
da democracia moderna. Essas contribuições se concretizam sobretudo na
Constituição de 1988, afirmando direitos e liberdades fundamentais. Contudo, seus
limites tornam-se manifestos em contextos caracterizados por profundas
desigualdades sociais e econômicas. A ênfase excessiva na liberdade formal e no
mercado tende a obscurecer desigualdades estruturais que comprometem o acesso
efetivo à cidadania, produzindo uma democracia restrita, frequentemente
acessível apenas às camadas mais privilegiadas da sociedade.
Por
sua vez, o socialismo oferece uma crítica incisiva às desigualdades provocadas
pelo sistema capitalista, enfatizando a importância da justiça social, da
igualdade material e do papel do Estado na redistribuição de recursos. Torna-se,
portanto, fundamental para abranger as raízes históricas da desigualdade
brasileira e a exclusão social persistente. No entanto, suas limitações surgem
quando experiências autoritárias, realizadas em seu nome, fragilizam a defesa
das liberdades políticas e institucionais, elemento indispensável para a
democracia contemporânea.
Nesse
cenário, surge a social-democracia. Ela vem como tentativa de intervenção entre
liberdade política e justiça social, propondo a ampliação dos direitos sociais
sem ruptura com a ordem democrática liberal. Essa perspectiva influenciou
políticas públicas de inclusão social e fortalecimento do Estado de bem-estar,
especialmente no período pós-redemocratização. Apesar de seus avanços, enfrenta
limites impostos pela fragilidade fiscal do Estado, pela resistência das elites
econômicas e pelas crises recorrentes do capitalismo global.
Já
o republicanismo contribui ao enfatizar a ética pública, o bem comum e a
responsabilidade cívica, tirando o foco na área privada. Autores como Renato
Janine Ribeiro destacam que o déficit republicano brasileiro se manifesta na
corrupção, na privatização do público e na baixa confiança nas instituições.
Embora ofereça uma crítica potente à degradação da vida pública, o republicanismo
encontra dificuldades práticas em se afirmar em uma sociedade marcada por
desigualdades profundas e frágil cultura cívica.
Finalmente,
temos a democracia, entendida como prática social e política ampliada,
permanece como horizonte normativo central. No entanto, como apontam autores
contemporâneos, a democracia brasileira convive com tensões permanentes. Os
ataques às instituições, crescimento de movimentos antidemocráticos e
deslegitimação dos direitos humanos são exemplos de manifestações que só servem
para enfraquecê-la. Tais fenômenos revelam que nenhuma matriz teórica,
isoladamente, é suficiente para explicar ou enfrentar os desafios da atualidade.
Esse cenário dialoga com a ascensão de ideologias conservadoras e de
extrema-direita, que tendem a restringir políticas de inclusão social,
impactando especialmente o acesso dos grupos mais vulneráveis à educação e a
outros direitos. Além disso, a compreensão política da maioria dos brasileiros
é dependente do componente informacional articulado pelas mídias sociais. Estas
estão sujeitas a interesses partidários e mascaram o apego a ideias arcaicas ou
extremistas.
Conclui-se
que a compreensão da democracia brasileira exige uma abordagem articulada entre
essas tradições teóricas. Suas possibilidades residem justamente no ponto de
vista crítico dialógico, permitindo pensar soluções que combinem liberdade,
igualdade, justiça social, ética pública e fortalecimento institucional. Já
seus limites aparecem quando aplicadas de forma dogmática, sem considerar a
especificidade histórica e social do Brasil. Por isso, incentivar as pessoas a
lutarem por seus direitos inclui em ensiná-las o que tais perspectivas contém.
Dessa maneira, estimulando seu posicionamento crítico diante da realidade, conseguiremos
mobilizar pelo caminho mais democrático e coerente possíveis, contribuindo para
a redução de práticas violentas e extremistas que fragmentam a vida democrática
em uma nação tão rica e complexa quanto o Brasil.
XOXO
REFERÊNCIAS
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L&PM, 1985.
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Florestan. Mudanças sociais no Brasil. São Paulo: Difel, 1979.
FRASER,
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Literária, 2020.
PIOVESAN,
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RIBEIRO,
Renato Janine. A democracia. São Paulo: Publifolha, 2013.
RIBEIRO,
Renato Janine. A república. São Paulo: Publifolha, 2015.
RIBEIRO,
Renato Janine. A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no
Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
WEBER,
Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das
Letras, 2004.



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