Entre branquitude e ancestralidade: A razão africana como enfrentamento ao racismo epistêmico (2026)

 By Cathy Scarlet



A reflexão acerca da razão africana demanda um olhar epistemológico com foco na crítica ao pensamento moderno ocidental e às bases ideológicas que abalizam o racismo estrutural no Brasil. Sodré (2017) afirma que a razão africana deve ser entendida como um sistema próprio de pensamento, aparelhamento social e produção de sentido, historicamente deslegitimado. Trata-se de uma racionalidade fundada na experiência comunitária, na oralidade, na ancestralidade e na inseparabilidade entre corpo, linguagem, espiritualidade e conhecimento.

Diversamente da racionalidade individualista moderna — marcada pela linearidade temporal e pela hierarquização dos saberes — a razão africana opera a partir de uma lógica relacional e simbólica, em que o sujeito se constitui a partir da coletividade. Nesse sentido, o conceito de comunidade litúrgica refere-se ao espaço social onde essa razão se consolida. Os terreiros de matriz africana, assim como outras formas de organização cultural afro, não se configuram somente como espaços religiosos, mas como territórios de frutificação de conhecimento, ética e memória coletiva. A liturgia, portanto, organiza-se a partir da oralidade, do respeito à senioridade, da circularidade do tempo e da transmissão de saberes pela vivência. Ou seja, o conhecimento é transmitido por meio do corpo, do rito, da música e da convivência em comunidade.

Como apontado por Bastide (1989), essas estruturas permitiram a preservação de valores africanos mesmo sob o regime escravocrata, funcionando como estratégias de resistência simbólica e cultural. Entretanto, o reconhecimento integral de sua contribuição tem sido sistematicamente impedido pelos interesses econômicos e ideológicos que estruturam nossa sociedade desde o período colonial. Conforme analisado por Rodney (2022), o colonialismo europeu hegemonizou-se a partir da exploração econômica e da desqualificação epistemológica dos povos africanos. Assim, a negação da razão africana desponta como parte constitutiva de um projeto de dominação.

No campo ideológico, Bento (2022) demonstra que a manutenção dos privilégios da branquitude depende da naturalização de uma hierarquia racial que se expressa também no plano simbólico e cultural. A valorização exclusiva de epistemologias eurocêntricas e a criminalização ou folclorização dos saberes afro-brasileiros operam como mecanismos de reprodução do racismo estrutural. Em O fascismo da cor (2023) essa crítica se aprofunda ao evidenciar como a cultura dominante transforma a diferença racial em ameaça, impedindo o reconhecimento pleno da pluralidade de saberes. Essa lógica se manifesta na marginalização das religiões de matriz africana, na invisibilidade curricular, na repressão às expressões culturais e na dificuldade de legitimar as comunidades litúrgicas como espaços de produção intelectual. Como aponta Mbembe (s.d.), o ensejo moderno constrói a “razão negra” como seu oposto, associando-a ao irracional, ao primitivo e ao excesso, justificando sua exclusão do campo do conhecimento legítimo.

No entanto, a própria razão dos povos africanos responde a tais obstáculos por meio de estratégias históricas de resistência e continuidade. A permanência dos terreiros, das manifestações culturais, da musicalidade, da dança e da oralidade evidencia uma racionalidade que se recusa a ser completamente capturada pela lógica colonial. Conforme destaca Moura (2020), a resistência negra não se limitou a revoltas armadas, mas também se expressou na preservação de contornos próprios de sociabilidade, cultura e pensamento. Nesse sentido, a comunidade litúrgica atua como espaço de enfrentamento ao racismo epistêmico, pois sustenta uma ética que provoca o individualismo neoliberal contemporâneo. Ao assegurar o corpo como lugar de saber e o rito como forma legítima de conhecimento, propõe uma crítica contundente às bases da modernidade ocidental e aponta para outras possibilidades de organização social e cultural.

Conclui-se que o não reconhecimento da razão africana e de suas comunidades litúrgicas no Brasil decorre da articulação histórica entre interesses econômicos, ideológicos e discriminatórios que sustentam o racismo estrutural. Esse processo privilegia matrizes de conhecimento eurocentradas e marginaliza formas de saber fundadas na ancestralidade e na experiência comunitária. O reconhecimento da razão africana, assim, não se limita à valorização simbólica, porém requer uma ruptura com a lógica colonial do conhecimento, condição indispensável para a construção de uma sociedade efetivamente plural, democrática e antirracista.

 


XOXO



REFERÊNCIAS

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil. São Paulo: USP/Pioneira, 1989.

MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: N-1 Edições, s.d.

MOURA, Clóvis. Dialética radical do Brasil negro. 3. ed. São Paulo: Anita Garibaldi, 2020.

RODNEY, Walter. Como a Europa subdesenvolveu a África. São Paulo: Boitempo, 2022.

SODRÉ, Muniz. Pensar nagô. Petrópolis: Vozes, 2017.

SODRÉ, Muniz. Claros e escuros: identidade, povo e mídia e cotas no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2005.

SODRÉ, Muniz. O fascismo da cor. Petrópolis: Vozes, 2023.


Comentários