E o vento levou - Margaret Mitchell (1936)
By Cathy Scarlet
FICHA TÉCNICA
Livro: E o vento levou (Gone with the wind)
Autor: Margaret Mitchell
País: Estados Unidos
Ano de lançamento: 1936
Gênero: Romance, ficção histórica
Nota: 10
Embora o filme, por si só, já apresente inúmeros aspectos passíveis de discussão, meu foco principal é o livro. Aliás, após a leitura, percebi que seu conteúdo não sofreu alterações significativas na adaptação cinematográfica, embora existam algumas diferenças entre uma obra e outra.
Pois bem, vamos ao que interessa: E o Vento Levou foi escrito por Margaret Mitchell, escritora e jornalista nascida em 1900, em Atlanta, nos Estados Unidos. É evidente sua opção por um viés histórico, uma vez que cresceu ouvindo relatos sobre acontecimentos que, posteriormente, viriam a inspirar uma de suas obras mais lembradas.
A história se desenvolve, principalmente, em dois grandes espaços: Atlanta e Tara, propriedade da família O'Hara. A primeira representa o enriquecimento, o poder e as aparências sociais; a segunda simboliza as raízes da protagonista, Scarlett O'Hara, filha mais velha de Gerald e Ellen O'Hara.
Quando a conhecemos, Scarlett ainda é uma jovem que desfruta plenamente da mocidade. Orgulha-se de atrair a atenção dos rapazes da região, conquistando-os com sua personalidade efusiva, ousada e sua beleza amplamente admirada. Surge então Melanie Hamilton, praticamente o oposto de Scarlett. Considerada uma rival por ter conquistado o amor de Ashley Wilkes, Melanie passa a despertar a antipatia da protagonista desde o início da narrativa. Suas inúmeras qualidades não são suficientes para que Scarlett compreenda por que Ashley a escolheu para esposa. Contudo, não é difícil perceber a afinidade entre os dois primos, algo relativamente comum dentro do contexto social retratado pela obra.
Nesse cenário, onde duas figuras femininas tão distintas se apresentam ao leitor, surge também Ashley Wilkes. Embora seja um aristocrata refinado e mantenha uma postura reservada durante boa parte da trama, trata-se de um personagem cujas falas e atitudes carregam uma ambiguidade essencial à proposta de Mitchell. É justamente essa característica que alimenta a obsessão de Scarlett ao longo de toda a narrativa e contribui para a ruptura de seu relacionamento com Rhett Butler. A protagonista demonstra força para enfrentar inúmeras adversidades, mas não consegue libertar-se da idealização construída na juventude, quando Ashley representava a imagem do príncipe encantado.
Diante desse aparente triângulo amoroso, surge Rhett Butler, o carismático forasteiro de reputação duvidosa que não mede esforços para fazer-se presente na vida da jovem O'Hara. Inteligente, sarcástico e mordaz, Rhett não se deixa dominar, característica que deixa Scarlett simultaneamente intrigada e fascinada. Seus sentimentos por Ashley, porém, impedem-na de enxergar qualquer possibilidade além de suas próprias fantasias românticas.
Como em todo bom romance histórico, acontecimentos sociais e políticos desempenham papel fundamental na transformação das personagens. No caso de E o Vento Levou, a Guerra Civil Americana provoca mudanças profundas tanto na sociedade quanto na vida daqueles que a integram.
Quando a narrativa se inicia, Scarlett é uma jovem acostumada a uma existência confortável, cujas maiores preocupações resumem-se a escolher vestidos elegantes e flertar nas festas. Com a guerra, entretanto, essa realidade se desfaz. A protagonista passa a enfrentar fome, privações e dificuldades que jamais imaginara experimentar. Diante dessa nova condição, desenvolve uma força extraordinária e promete a si mesma que jamais voltará a passar necessidade.
Esse desejo transforma-se em uma verdadeira obsessão pela estabilidade financeira. Contudo, os caminhos percorridos para alcançar tal objetivo acabam afastando-a dos valores tradicionais ensinados por sua mãe. Scarlett deixa de ser vista como integrante da velha aristocracia sulista e passa a ser alvo de críticas por sua atuação como mulher de negócios em uma sociedade que ainda considerava inadequado o protagonismo feminino no mundo econômico.
Seguindo a mentalidade da época retratada, Mitchell apresenta também a questão racial dentro de uma sociedade escravocrata. Após a guerra, a libertação dos escravizados promove uma ruptura adicional em uma estrutura social já fragilizada pelas perdas humanas e econômicas.
Os negros libertos são frequentemente retratados, sob o olhar das personagens sulistas, como indivíduos incapazes de lidar adequadamente com a nova condição de liberdade, refletindo os preconceitos e valores presentes na mentalidade da época. Em contrapartida, aqueles que permaneceram ao lado das famílias para as quais trabalhavam continuam sendo vistos de forma mais positiva pelos representantes da chamada Velha Guarda.
Essa representação pode causar desconforto ao leitor contemporâneo, mas contribui para a verossimilhança histórica da narrativa, justamente por não ignorar os valores, preconceitos e conflitos existentes naquele contexto social.
Ainda dentro das reflexões proporcionadas pela leitura, alguns acontecimentos merecem destaque por contribuírem para a atmosfera dramática da obra e para o amadurecimento — ainda que parcial — de diversas personagens.
A guerra não transforma apenas cidades e estruturas sociais; ela altera profundamente aqueles que sobrevivem.
As mortes que atravessam a narrativa representam muito mais do que simples perdas individuais. Elas simbolizam o desaparecimento de uma forma de vida, de valores e de certezas que pareciam inabaláveis antes do conflito.
É o caso de Ellen O'Hara. Figura quase idealizada aos olhos de Scarlett, representa o equilíbrio, a disciplina e a força moral que sustentavam a família. Entretanto, ao observarmos sua trajetória com mais atenção, percebemos uma mulher marcada pela resignação e por escolhas que nem sempre nasceram do amor. Sua incapacidade de adaptar-se à nova realidade imposta pela guerra contribui para sua fragilidade diante das adversidades que se acumulam.
O mesmo ocorre com Gerald O'Hara. Orgulhoso e profundamente ligado à terra que conquistou, jamais consegue aceitar plenamente as transformações trazidas pela derrota sulista. Sua decadência simboliza a derrocada de uma geração inteira incapaz de compreender o mundo que surgia após o conflito.
Outra perda marcante é a de Bonnie Blue Butler. Sua morte prematura não representa apenas a interrupção de uma vida cheia de possibilidades; ela simboliza também a ruptura definitiva do frágil vínculo que ainda unia Rhett e Scarlett. A menina funciona como um reflexo de ambos e, ao mesmo tempo, como um elo entre eles. Quando esse elo desaparece, torna-se impossível ignorar as fissuras que há muito comprometiam o casamento.
As transformações provocadas pela guerra também atingem diretamente as relações pessoais da protagonista.
Uma das mais significativas envolve seus próprios filhos. Wade, Ella Lorena e Bonnie jamais ocupam um espaço central em sua vida da mesma forma que Tara, Ashley ou os próprios projetos pessoais da mãe. Embora Scarlett demonstre afeto por eles em determinados momentos, é impossível ignorar a distância emocional que frequentemente marca essas relações.
Entretanto, talvez nenhuma mudança seja tão impactante quanto aquela relacionada a Melanie Hamilton.
Durante boa parte da narrativa, Scarlett enxerga Melanie como uma rival. Afinal, ela representa tudo aquilo que a protagonista acredita ter perdido: o amor de Ashley. Contudo, à medida que a história avança, torna-se evidente que Melanie é uma das poucas pessoas que ama Scarlett de maneira genuína e incondicional.
Sua admiração jamais vacila.
Sua lealdade jamais diminui.
Sua confiança permanece intacta mesmo diante de situações que fariam qualquer outra pessoa questionar as intenções da cunhada.
Por isso, a morte de Melanie possui um impacto tão profundo. Apenas diante da possibilidade de perdê-la para sempre Scarlett compreende a dimensão do carinho, da admiração e do afeto que nutria por aquela mulher durante todos aqueles anos.
Mas é justamente após essa perda que ocorre a maior ruptura da narrativa.
A idealização de Ashley Wilkes finalmente se desfaz.
Durante anos, Scarlett alimentou uma paixão construída muito mais sobre fantasias do que sobre a realidade. Ashley representava a juventude perdida, os sonhos não realizados e um passado que ela insistia em preservar. Entretanto, quando finalmente passa a enxergá-lo sem as lentes da idealização, percebe algo desconfortável: o homem que julgava amar não corresponde à imagem que havia criado.
Sua indecisão constante, sua incapacidade de agir e seu apego excessivo ao passado tornam-se impossíveis de ignorar.
Aos poucos, Scarlett compreende que esteve apaixonada menos pelo homem real e mais pela ideia que construiu dele ao longo dos anos.
Essa revelação chega tarde demais.
Ao perceber a verdade sobre Ashley, ela também compreende aquilo que o leitor já vinha observando há muito tempo: Rhett Butler era o homem que verdadeiramente a amava.
Entretanto, o desgaste acumulado por anos de incompreensão, orgulho e escolhas equivocadas cobra seu preço.
Na célebre conversa final, Rhett demonstra que já não possui forças para continuar sustentando sozinho uma relação marcada por desencontros emocionais. Depois de anos tentando conquistar o amor de Scarlett, ele finalmente decide abandonar aquilo que a esposa jamais conseguiu oferecer plenamente.
Sem saber como reagir diante de mais uma perda, Scarlett volta-se para Tara.
E não é por acaso.
Ao longo de toda a narrativa, seu lar representa muito mais do que uma propriedade rural. Ela simboliza pertencimento, origem, identidade e resistência. Sempre que tudo parece perdido, é para Tara que Scarlett retorna.
Ao final da leitura, torna-se impossível não refletir sobre o peso das escolhas, das ilusões que cultivamos e das oportunidades que desperdiçamos por não enxergar a realidade como realmente é.
A vida é construída pelas decisões que tomamos.
Pelas relações que escolhemos preservar.
Pelas pessoas que valorizamos — ou deixamos de valorizar — enquanto ainda temos tempo.
Por isso, E o Vento Levou permanece uma obra tão relevante. Margaret Mitchell oferece muito mais do que um romance histórico. Ela apresenta personagens profundamente humanos, marcados por virtudes, defeitos, contradições e limitações.
Cada página amplia nossa compreensão não apenas daquele contexto histórico, mas também das complexidades das relações humanas.
Ao final, percebemos que os grandes dramas da obra não se resumem à guerra ou às transformações sociais. Eles nascem, sobretudo, das escolhas feitas por seus personagens e da dificuldade que todos nós temos em reconhecer aquilo que realmente importa antes que o tempo o leve para sempre.



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