Onde está Segunda? (2017) - Filme
By Cathy Scarlet
FICHA TÉCNICA:
Filme: Onde está Segunda? (What happened to Monday?)
Diretor: Tommy Wirkola
Ano: 2017
Duração: 124 minutos
País: Estados Unidos
Gênero: Thriller de ficção científica distópica
No entanto, a ação começa justamente com seu sumiço, deixando as irmãs preocupadas. Terça, então, tenta seguir os passos da irmã para solucionar o mistério. Acaba indo parar ela própria nas mãos de seus algozes, que vão atrás das demais. O primeiro combate acaba com Domingo morta nos braços de Quarta. Sua morte me pareceu bem simbólica: a morte das utopias. Após receber em sua casa a visita do oficial Adrian, Sábado vai até sua casa para baixar informações do sistema no qual o agente trabalhava e acaba tendo sua primeira vez com ele, descobrindo, posteriormente, que Segunda era a irmã com quem o homem se relacionava.
Desta forma, este é um filme que te prende do começo ao fim pela criatividade com que vários temas são abordados e nos possibilita a reflexão crítica. Antes de qualquer coisa, vou apontar o que não gostei na trama: o foco narrativo parecer deter-se em apenas algumas das sete irmãs, deixando as demais de lado ou sutilmente delineadas, ao ponto de não sabermos determinar quem são em essência, como é o caso de Domingo e Terça. Estas são definidas de maneira bem ofuscada em comparação com outras das irmãs, que dominam a narrativa de maneira quase que total e exclusiva. Os resultados disso são que algumas dessas personagens ficaram muito planas, sendo difícil diferenciá-las das demais. Outro ponto que não gostei são as lacunas históricas deixadas em suspenso, como o fim que teve o avô das meninas.
Para quem possui irmãos, sabe que nem sempre é fácil lidar com diferentes formas de ser, de enxergar o mundo ou de enfrentar as mudanças que acompanham a passagem da infância para as demais fases da vida, especialmente a vida adulta. É justamente nesse período que muitos laços familiares se fortalecem ou se rompem definitivamente.
No início da trama, vemos as irmãs já adultas, imersas em uma rotina marcada pelo marasmo e por conflitos nem sempre explicitados. Alguns permanecem velados; outros são facilmente perceptíveis, como a fragilidade dos vínculos familiares. A imposição do avô parece funcionar como o único elo capaz de mantê-las minimamente unidas, ainda que de forma instável e superficial.
Ao longo da narrativa, somos apresentados a algumas digressões da infância das personagens. Nelas, observamos o avô empenhado em criar as netas como pequenas guerreiras, incentivando-as a manter uma imagem de unidade e força. No entanto, pouco sabemos sobre a construção emocional dessas relações. Embora existam demonstrações de afeto por parte de Terrence, os sentimentos das jovens em relação a ele permanecem menos evidentes.
E talvez isso seja um dos aspectos mais interessantes da obra, justamente por refletir algo muito comum na vida real: a dificuldade de acessar as emoções dos outros e de aprofundar os vínculos dentro da própria família.
Lidar com sentimentos nunca é simples. Trata-se de um terreno delicado, muitas vezes marcado por conflitos não resolvidos, ressentimentos, ciúmes, invejas e expectativas frustradas. Quando essas questões permanecem sem diálogo, tendem a crescer silenciosamente e a influenciar a forma como enxergamos aqueles que nos cercam.
Na vida adulta, essas experiências acabam moldando não apenas quem somos, mas também os sentimentos que nutrimos por nossos familiares. Em alguns casos, criamos verdadeiros vilões em nossas histórias pessoais simplesmente porque nunca aprendemos a conversar abertamente sobre nossas dores, frustrações e percepções.
Talvez uma das relações mais afetadas por esse processo seja justamente a relação entre irmãos. Aos poucos, a falta de diálogo pode dar lugar à incompreensão, e a incompreensão pode transformar-se em rivalidade. Em vez de construírem pontes, alguns passam a alimentar disputas, ressentimentos e competições que se perpetuam ao longo dos anos.
E o mais triste é que, muitas vezes, tudo isso acontece quando bastaria que se permitissem ser quem realmente são: sem máscaras, sem comparações e sem o peso constante do julgamento.
O filme também evidencia como a política permanece marcada por manipulações e interesses particulares, mesmo em um futuro supostamente mais avançado. Trata-se de uma crítica que dialoga não apenas com a realidade fictícia apresentada na trama, mas também com questões presentes em nossa própria sociedade.
Em um primeiro momento, os programas criados para controlar o crescimento populacional e reorganizar a produção de alimentos parecem bem-intencionados, racionais e necessários. Contudo, à medida que novas informações são reveladas ao espectador, essa percepção começa a mudar.
Aquilo que inicialmente se apresentava como uma solução humanitária revela uma face muito mais sombria. Somos colocados diante de uma governante extremamente ambiciosa, cuja preocupação principal parece estar voltada para números, metas e indicadores. Em nome desses objetivos, ela demonstra estar disposta a ignorar princípios éticos fundamentais e a instrumentalizar o sofrimento humano para alcançar os resultados desejados.
A justificativa utilizada para tais medidas apoia-se em problemas reais — como a escassez de recursos e o crescimento populacional descontrolado —, mas a solução proposta ultrapassa qualquer limite moral, transformando vidas humanas em meras estatísticas.
Nesse sentido, o filme levanta uma reflexão inquietante: até que ponto governos, instituições ou líderes podem justificar determinadas ações em nome de um suposto bem maior? Quantas decisões tomadas em diferentes contextos históricos já não sacrificaram indivíduos ou grupos inteiros sob o argumento de promover estabilidade, progresso ou desenvolvimento?
E, mais importante ainda: quando metas e resultados passam a valer mais do que as pessoas, o que resta da humanidade que essas mesmas políticas afirmam proteger?
Irmãs tão diferentes entre si dificilmente poderiam coexistir sem conflitos. Cada uma delas construiu uma forma particular de enxergar a si mesma e de se apresentar ao mundo, o que inevitavelmente gera atritos quando essas identidades entram em choque.
Ao longo da trama, observamos Segunda desejando destacar-se das demais e afirmar sua individualidade. Sábado assume a imagem de uma mulher sedutora e confiante. Sexta parece refugiar-se em seu próprio universo, mantendo certa distância das outras, mas demonstrando grande capacidade de sacrifício em nome do bem comum. Já Quarta revela um profundo desconforto em relação à estrutura familiar da qual faz parte, sentindo-se deslocada e diferente das demais.
Entretanto, é justamente Quarta quem protagoniza uma das reflexões mais interessantes do filme. Apesar de sua insatisfação, ela acaba compreendendo que pertence a algo maior do que a própria individualidade. Aos poucos, percebe que não faz parte apenas da identidade construída em torno de Karen Settman, mas de uma família cujos membros, apesar das diferenças, permanecem unidos por laços de afeto, proteção e pertencimento.
Talvez seja por isso que essa dinâmica funcione tão bem como metáfora para a experiência humana.
Estamos constantemente construindo imagens de nós mesmos e desejando que elas sejam reconhecidas pelos outros. Em alguns momentos, tentamos parecer mais fortes, mais interessantes ou mais confiantes do que realmente somos. Em outros, mostramos apenas fragmentos cuidadosamente selecionados da nossa personalidade.
Raramente nos sentimos confortáveis com a ideia de sermos vistos em toda a nossa complexidade.
Muitas vezes fingimos ser quem não somos para obter aceitação, evitar críticas ou conquistar pertencimento. No fundo, existe um receio quase universal de revelar nossas vulnerabilidades e descobrir que aquilo que somos de verdade talvez não corresponda às expectativas alheias.
Por isso, mais do que falar sobre sete irmãs diferentes, o filme parece falar sobre algo que existe em todos nós: a difícil tarefa de conciliar quem realmente somos com a imagem que desejamos projetar para o mundo.
XOXO





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