Crônicas Ameríndias - Gustavo Schimpp e Enrique Alcatena (2022)
By Cathy Scarlet
Ao longo da história, diversos autores tentaram sondar o universo dos povos originários em suas obras — alguns com mais sucesso do que outros. O que mais chama a atenção, porém, é quando conseguem transmitir um pouco da perspectiva daqueles sobre os quais escrevem, permitindo que o leitor enxergue o mundo por um ângulo diferente do habitual. Foi justamente essa expectativa que despertou minha curiosidade ao me deparar com mais uma dessas tentativas tão peculiares.
Com o passar do tempo, os gêneros textuais também se transformaram para acompanhar as mudanças no perfil dos leitores e em suas formas de consumir histórias. Entre essas transformações, consolidaram-se as graphic novels, um formato multimodal que conquista tanto pela narrativa escrita quanto pelo impacto visual. Confesso que, comigo, não foi diferente. Movida por essa combinação e pela curiosidade em conhecer novas perspectivas, chegou às minhas mãos esta obra inspirada em lendas e tradições dos povos originários da região dos Grandes Lagos, na América do Norte.
Antes de falar sobre a narrativa, não poderia deixar de mencionar seus criadores, ambos argentinos. Enrique Alcatena e Gustavo Schimpp destacaram-se pela qualidade de seus trabalhos, o que lhes abriu espaço também no mercado europeu. A parceria entre o traço expressivo de Alcatena e a escrita de Schimpp resulta em uma obra visualmente marcante e narrativamente envolvente.
Ao longo da leitura, nos deparamos com contos que abordam temas como tradição, violência, sabedoria, coragem, interpretação dos sonhos e a profunda relação entre o ser humano e a natureza. Mais do que apresentar histórias isoladas, a obra consegue transmitir parte da complexidade que envolve o modo como esses povos compreendem o sobrenatural, a coletividade e até mesmo suas próprias fragilidades — tão humanas quanto as nossas.
Embora seus criadores não pertençam aos povos originários retratados, a forma como representam diferentes nações — como iroqueses, urões, algonquinos, moicanos e senecas — revela um cuidado evidente em respeitar suas tradições e especificidades. Talvez esse tenha sido um dos aspectos que mais me agradaram durante a leitura: a percepção de que não existe uma única identidade indígena, mas uma diversidade de culturas, histórias e modos de compreender o mundo. A obra desperta justamente essa curiosidade, incentivando o leitor a ir além das páginas e conhecer um pouco mais sobre esses povos.
Ao final da leitura, fica a impressão de que a verdadeira sabedoria não nasce apenas do conhecimento acumulado, mas da maneira como escolhemos viver e enfrentar nossas decisões... ou até mesmo as consequências daquilo que deixamos de fazer. Essa ideia se fortalece pela própria estrutura dos contos, que frequentemente assumem uma construção cíclica, retornando ao ponto de partida para conferir ainda mais significado ao desfecho.
Recomendo não apenas a leitura, mas a experiência proporcionada por esta obra. Crônicas Ameríndias oferece ao leitor a oportunidade de entrar em contato com narrativas que valorizam a memória, a oralidade e a riqueza simbólica dos povos originários da região dos Grandes Lagos. Porque algumas histórias não atravessam os séculos apenas para serem lembradas, mas para continuarem ensinando aqueles que se dispõem a escutá-las.





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