O Diário do meu Pai - Jiro Taniguchi (2024)
By Cathy Scarlet
Muito se tem discutido, atualmente, sobre as diferentes gerações e as formas como cada uma delas é moldada pela sociedade em que está inserida, carregando consigo valores, crenças e convicções que, muitas vezes, parecem inquestionáveis.
Ao longo da vida, construímos imagens sobre as pessoas com quem convivemos. Pouco refletimos, porém, sobre como essas percepções foram sendo formadas até se cristalizarem em verdades aparentemente imutáveis. Tornam-se sólidas. Difíceis de revisar. Quase inabaláveis.
Há algum tempo, uma questão tem despertado constantemente minha atenção: duas pessoas podem conviver com o mesmo indivíduo durante anos e, ainda assim, construir retratos completamente distintos dele.
Pode parecer estranho — ou até mesmo surreal —, mas essa é uma realidade presente não apenas dentro de nossas famílias, como também ao longo da própria História. Heróis são transformados em vilões; vilões passam a ser venerados como heróis. A memória humana raramente é simples ou objetiva.
Foi justamente por essa razão que, ao escolher este mangá e me deparar com sua narrativa, senti vontade de compartilhar com vocês mais um verdadeiro achado: O Diário do Meu Pai.
Antes, porém, vale a pena conhecermos um pouco de seu criador.
Jiro Taniguchi nasceu em Tottori, em 14 de agosto de 1947 — cidade japonesa que, curiosamente, também serve de cenário para a história que analisaremos a seguir.
Leonino, para aqueles que apreciam astrologia, Taniguchi desenvolveu um estilo muito particular, marcado pela delicadeza, pelo silêncio narrativo e pela observação sensível das pequenas experiências humanas.
Suas obras abordam temas adultos com grande profundidade emocional, transformando acontecimentos aparentemente cotidianos em reflexões universais sobre memória, família, tempo e identidade.
Traduzidos para diversos idiomas, seus mangás ultrapassaram as fronteiras do Japão e permitiram que leitores do mundo inteiro conhecessem o legado desse artista, que nos deixou em 2017.
Em O Diário do Meu Pai, acompanhamos o retorno do filho pródigo à cidade natal para o funeral de seu pai.
Yoichi Yamashita passou anos alimentando um profundo ressentimento em relação ao pai após a separação deste de sua mãe, Kiyoko.
Por meio de uma narrativa delicada e carregada de sutilezas, somos conduzidos às lembranças da infância de Yoichi ao lado dos pais, Takeshi e Kiyoko, de sua irmã mais velha, Haruno, e do tio materno, Daisuke, que acabou assumindo, em muitos momentos, uma importante figura paterna em sua vida.
Durante o velório, o agora homem da cidade começa, pouco a pouco, a perceber nuances da realidade que jamais haviam lhe ocorrido. Apesar das dificuldades enfrentadas pela família, existia ali uma convivência comum e harmoniosa.
Entretanto, um trágico incêndio altera profundamente o destino de todos e desencadeia acontecimentos que culminam na separação dos pais. Convencido de que Takeshi era o principal responsável pela destruição de seu lar — em razão do excesso de trabalho e do distanciamento afetivo —, Yoichi afasta-se da família por muitos anos.
Sem jamais ter tido uma conversa franca com o pai, passa a reconstruir, lentamente, a verdadeira história daquele homem de quem fugira durante tanto tempo, como quem costura uma colcha de retalhos formada por lembranças, relatos e pequenas descobertas.
Em síntese, trata-se de uma narrativa profundamente sensível sobre as relações humanas. Embora publicada em 1994, continua extremamente atual, chegando até nós como uma reflexão capaz de ultrapassar gerações, culturas e contextos históricos.
A questão do ponto de vista — e da maneira como ele pode nos cegar para detalhes essenciais na compreensão do outro e de nós mesmos — constitui, talvez, uma das discussões mais poderosas propostas pelo mangá. Trata-se de um debate que deveria ocupar espaço não apenas nas escolas, mas também dentro das famílias e nos mais diversos ambientes de convivência.
Somos seres complexos e, muitas vezes, inclinados aos absolutismos. Julgamos antes de compreender. Reproduzimos opiniões sem refletir sobre suas consequências. Quantas pessoas não tiveram suas vidas marcadas por julgamentos precipitados?
Famílias inteiras se desintegram por conflitos que, em sua origem, talvez fossem pequenos, mas que acabam assumindo proporções gigantescas na memória daqueles que os vivenciaram. Fofocas destroem reputações em questão de horas e, frequentemente, sem qualquer propósito além da propagação da desinformação.
Uma das causas desse processo talvez seja justamente nosso olhar enviesado sobre a realidade. Pouco nos dispomos a examinar criticamente nossos próprios julgamentos, nossas atitudes diante do desconhecido, do diferente, das escolhas de vida alheias ou das personalidades que simplesmente não coincidem com a nossa.
Queremos, muitas vezes, moldar o mundo segundo nossos próprios parâmetros.
E aquilo que escapa a eles tendemos a rejeitar, ignorar ou até destruir.
Espero que esta leitura lhes permita compreender um pouco melhor essas reflexões — e que minhas palavras, afinal, não lhes pareçam tão "fora da casinha" quanto talvez pareçam à primeira vista.




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