Responsabilidade emocional na atualidade

 By Cathy Scarlet

Não é raro ouvirmos amigos, familiares ou conhecidos relatarem suas desventuras — amorosas ou não. Mas não sejamos ingênuos: quando o assunto é sofrimento emocional, os relacionamentos costumam ocupar lugar de destaque.

Quantas vezes já nos deparamos com histórias de pessoas que sofreram em decorrência de atitudes inexplicáveis de terceiros? Pessoas que viram seus sentimentos ignorados, suas expectativas frustradas e seus vínculos destruídos sem qualquer consideração pelas consequências emocionais envolvidas?

Quem nunca conheceu alguém preso a um relacionamento abusivo? Alguém cuja individualidade foi gradualmente apagada porque o parceiro não dialoga, não cede, não reconhece seus próprios problemas, não busca ajuda quando necessário ou simplesmente se recusa a enxergar o outro como um ser humano dotado de sonhos, desejos, vontades e fragilidades tão legítimas quanto as suas?

Exagero?

Quem dera fosse.

Vivemos em pleno século XXI. As relações pessoais e profissionais são construídas, mantidas e transformadas por intermédio da tecnologia em uma velocidade sem precedentes. E, embora isso tenha ampliado enormemente nossas possibilidades de contato e interação, também trouxe desafios que nem sempre sabemos administrar.

Estamos cada vez mais conectados e, paradoxalmente, muitas vezes mais distantes.

Talvez porque já não pareçamos satisfeitos com aquilo que é singular. A lógica da substituição constante, da novidade permanente e da multiplicidade de opções parece ter invadido também a forma como nos relacionamos. Tornamo-nos mais voláteis, mais imediatistas e, por vezes, menos dispostos a construir vínculos duradouros.

Com isso, também parece diminuir nossa capacidade de enxergar o outro em sua complexidade. Tornamo-nos menos atentos às dores, aos receios, às histórias e às circunstâncias daqueles que cruzam nosso caminho.

E não, isso não é simples.

Quanto maior nossa rede de contatos, maior também a diversidade de experiências, expectativas e conflitos presentes nela. Conviver com pessoas diferentes exige esforço, diálogo, empatia e maturidade emocional. Faz parte da própria condição humana.

Cada indivíduo carrega uma história única, marcada por vivências, traumas, sonhos, conquistas e frustrações. Cada pessoa possui inúmeras facetas que a tornam singular em um mundo vasto e heterogêneo.

E, ainda assim, muitas vezes agimos como se não houvesse espaço para essa complexidade.

Mas estou me adiantando.

Sejam bem-vindos a uma reflexão sobre responsabilidade emocional e sobre os desafios de praticá-la em uma sociedade onde os relacionamentos parecem cada vez mais banalizados.

Vivemos cercados por informações, opiniões e estímulos que influenciam diretamente nossa maneira de enxergar a nós mesmos e aos outros. Nesse contexto, surgem dificuldades crescentes para proteger nossa saúde emocional e estabelecer relações verdadeiramente saudáveis.

Muitas vezes encontramos pessoas profundamente feridas tentando curar suas dores através de outras pessoas. Outras vezes, encontramos indivíduos que, consciente ou inconscientemente, acabam reproduzindo nos demais as feridas que carregam dentro de si.

Nem sempre há maldade deliberada nesses processos. Frequentemente, trata-se apenas de pessoas tentando sobreviver emocionalmente sem possuir as ferramentas necessárias para lidar com suas próprias dores.

Isso, porém, não elimina as consequências.

A sobrecarga emocional gerada por relações desequilibradas pode afetar não apenas nosso estado psicológico, mas também nossa saúde física, nosso bem-estar e nossa forma de perceber o mundo.

Não estamos imunes a nada nesta vida.

Muito menos à influência que exercemos uns sobre os outros.



O primeiro grande ponto que merece reflexão é o quanto nos tornamos descartáveis em uma sociedade globalizada e profundamente marcada pela lógica capitalista.

Somos números.

Números nas estatísticas. Números ao passar pela catraca do ônibus, do metrô ou do trem. Números ao bater o ponto no trabalho. Números em planilhas, relatórios, cadastros e pesquisas de mercado.

Até aí, por mais desconfortável que pareça, trata-se de uma consequência relativamente previsível de estruturas que precisam lidar diariamente com milhões de pessoas.

O que verdadeiramente me assusta é perceber que essa mesma lógica parece ter ultrapassado os limites das instituições e invadido nossas relações interpessoais.

Porque, em muitos momentos, passamos a tratar pessoas como números também.

Nas amizades. Nos relacionamentos amorosos. Nos círculos sociais. Até mesmo dentro das famílias.

Somos apenas mais um.

E os outros também.

Salvo raras exceções, reservadas àqueles poucos indivíduos que consideramos especiais ou importantes.

Esses possuem rosto.

Possuem nome.

Possuem história.

Os demais acabam se diluindo em uma massa indiferenciada de pessoas que ocupam a categoria do "tanto faz".

Nela estão os desconhecidos que jamais conheceremos. Estão aqueles que passaram brevemente por nossas vidas. E, infelizmente, também estão aqueles que decidimos descartar quando deixaram de atender às nossas expectativas, necessidades ou interesses.

Analisamos.

Selecionamos.

Sondamos.

Descartamos.

Como se pessoas fossem produtos expostos em uma prateleira invisível.

Talvez seja justamente por isso que uma das frases mais marcantes de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, sempre tenha exercido tanto impacto sobre mim. Ela traduz com enorme sensibilidade a responsabilidade que assumimos quando permitimos que alguém ocupe um espaço significativo em nossa vida — e vice-versa.

O segundo ponto diz respeito ao impacto que exercemos uns sobre os outros.

Nos espaços sociais que frequentamos — sejam eles físicos ou virtuais — estamos constantemente estabelecendo relações, criando vínculos, compartilhando experiências e construindo aproximações baseadas em afinidades, interesses, necessidades ou simples circunstâncias da vida cotidiana.

Em outras palavras: estamos cativando pessoas.

E sendo cativados por elas.

Toda interação produz algum efeito, por menor que seja. Desperta emoções, expectativas, simpatias, rejeições, admirações ou questionamentos. São raros os casos em que alguém permanece completamente indiferente após uma convivência significativa ou uma aproximação genuína.

O impasse surge quando conflitos, divergências ou decepções passam a interferir nessa dinâmica.

Aquilo que inicialmente despertava admiração pode transformar-se em frustração. O que parecia proximidade converte-se em distanciamento. E a impressão positiva construída ao longo do tempo pode ser enfraquecida ou até mesmo destruída.

Nesses momentos, nossas reações variam.

Às vezes nos afastamos.

Às vezes tentamos compreender.

Às vezes dialogamos.

E, infelizmente, há ocasiões em que procuramos invalidar a experiência, a voz ou a subjetividade do outro. É justamente nesse terreno que florescem práticas como a humilhação, o assédio moral e outras formas de violência simbólica.

Talvez porque lidar com conflitos continue sendo uma das tarefas mais difíceis da existência humana.

Frequentemente preferimos evitar o desconforto da mudança a confrontar aquilo que nos desafia. Temos dificuldade em acolher dores que não são nossas, compreender experiências diferentes das que vivemos ou considerar perspectivas que entram em choque com nossas próprias convicções.

O novo costuma provocar estranhamento.

E o estranhamento, por sua vez, pode gerar resistência, desconfiança, deboche ou rejeição.

Não porque sejamos necessariamente pessoas cruéis, mas porque mudanças nos obrigam a questionar certezas, rever comportamentos e repensar a maneira como enxergamos a nós mesmos e ao mundo.

E isso nem sempre é confortável.

Na verdade, poucas coisas são tão desconfortáveis quanto perceber que talvez não tenhamos todas as respostas.

Por isso, não há nada de errado em sentir receio diante da mudança. Trata-se de uma reação profundamente humana.

O problema surge quando esse receio nos impede de enxergar o outro como alguém igualmente complexo, legítimo e digno de consideração.

Sabe onde está o erro? Quiz rápido!


A - no Trump

B - no Bolsonaro

C - em não considerar os sentimentos do outro


Essa foi difícil, eu sei! Entretanto, a alternativa correta é a C!


Talvez um dos maiores problemas contemporâneos seja justamente este: temos enorme dificuldade em nos responsabilizar pelos impactos emocionais que causamos nos outros.

Sabemos criticar.

Sabemos rejeitar.

Sabemos humilhar.

Sabemos ignorar.

Mas nem sempre demonstramos a mesma disposição para dialogar, explicar mudanças de comportamento ou comunicar de forma honesta quando nossos sentimentos e intenções se transformam.

Muitas vezes simplesmente desaparecemos.

Afastamo-nos.

Silenciamos.

Interrompemos vínculos sem explicações.

Ignoramos expectativas que ajudamos a construir.

E seguimos adiante como se nada tivesse acontecido.

Mas e o outro?

Quando a empatia deixa de ocupar um espaço relevante em nossas relações, o outro tende a tornar-se apenas um detalhe inconveniente da história.

Afinal, suas dores, suas dúvidas e suas frustrações passam a representar problemas que já não nos pertencem.

Nesse contexto, o individualismo contemporâneo torna-se particularmente perigoso. A constante busca por satisfação imediata, aliada à sensação de que sempre existem novas possibilidades, novas pessoas e novas experiências ao nosso alcance, dificulta a construção de vínculos sólidos e duradouros.

Pessoas entram.

Pessoas saem.

Pessoas distraem.

Pessoas substituem.

E, muitas vezes, atravessam a vida umas das outras sem perceber os rastros que deixam para trás.

O terceiro ponto talvez seja ainda mais delicado.

Nem sempre jogamos limpo.

Nem sempre somos honestos sobre nossas intenções.

Nem sempre nos aproximamos das pessoas pelos motivos que afirmamos possuir.

E isso ocorre nos mais diversos contextos.

Um homem pode apresentar-se como parceiro ideal apenas para obter uma conquista sexual.

Uma colega de trabalho pode demonstrar lealdade enquanto seus interesses coincidem com os seus.

Uma amizade pode parecer sólida até que surja uma oportunidade considerada mais vantajosa.

Uma relação amorosa pode permanecer estável apenas até que apareça alguém percebido como mais atraente ou mais conveniente.

Naturalmente, nem todas as pessoas agem dessa maneira.

Mas seria ingenuidade fingir que tais comportamentos não existem.

O mais preocupante não é a existência da manipulação em si — ela sempre existiu. O problema surge quando passamos a encará-la como algo normal, inevitável ou até justificável em nome da satisfação de desejos individuais.

Porque, nesse momento, deixamos de enxergar pessoas como fins em si mesmas e passamos a vê-las apenas como meios para alcançar aquilo que queremos.


Vamos juntar tudo isso? Claro que poderia acrescentar inúmeros pontos, mas sou de humanas e, quanto mais números, mais a chance de a conta não fechar (piada de humanas = risos de humanas): 

Pessoas descartáveis + habilidade de cativar + jogo interpessoal obscuro = pessoas emocionalmente doentes, dos dois lados, sem exclusividade de posição.


Mas como resolver uma questão tão complexa?

Se fosse possível reformular seres humanos como quem atualiza um programa de computador, talvez a tarefa fosse mais simples. Infelizmente — ou felizmente — não funcionamos assim.

Mudanças profundas raramente acontecem por decreto. Tampouco existem fórmulas capazes de transformar instantaneamente indivíduos egoístas em pessoas empáticas ou relações destrutivas em vínculos saudáveis.

O que podemos fazer, entretanto, é buscar um exercício constante de equilíbrio.

Equilíbrio entre razão e emoção.

Não permitindo que nenhuma delas governe sozinha nossas escolhas, mas aprendendo a conviver com ambas de forma saudável e consciente.

Porque, quando nos deixamos conduzir exclusivamente pela emoção, corremos o risco de nos perder em expectativas irreais, frustrações profundas e sofrimentos desnecessários. Por outro lado, quando entregamos tudo à razão, podemos nos tornar excessivamente frios, calculistas e indiferentes às necessidades daqueles que nos cercam.

Talvez a resposta esteja justamente no encontro entre essas duas dimensões.

Na capacidade de sentir sem nos destruirmos.

De pensar sem nos endurecermos.

De acolher sem nos anularmos.

De proteger a nós mesmos sem deixarmos de nos importar com os outros.

Isso não impedirá que encontremos pessoas sem empatia pelo caminho. Tampouco evitará todas as decepções, abandonos ou injustiças que fazem parte da experiência humana.

Mas pode impedir que tais experiências determinem completamente quem somos.

Porque acredito que ainda precisamos fazer a diferença.

Precisamos continuar plantando aquilo que desejamos encontrar no mundo, mesmo quando os resultados não são imediatos.

Vivemos em uma realidade onde sementes de afeto, respeito e consideração são lançadas diariamente sobre solos áridos, pedregosos ou aparentemente inférteis.

Muitas não germinam.

Outras até brotam, mas não resistem ao tempo.

Ainda assim, algumas florescem.

E talvez seja justamente por causa delas que valha a pena continuar semeando.

E o que dizer àqueles cuja empatia parece estar um pouco enferrujada?

Que tal um breve exercício de reflexão?

Pense por alguns instantes: quem você decepcionou recentemente? Quem foi ignorado por você sem explicação? Houve alguém que recebeu sua indiferença, seu desprezo ou que acabou magoado por uma atitude tomada apenas para satisfazer seus interesses ou sua vontade?

Pensou?

Ótimo.

Agora faça uma segunda pergunta a si mesmo: ainda há algo que possa ser feito?

Talvez uma conversa.

Talvez um pedido de desculpas.

Talvez um esclarecimento que nunca foi dado.

Talvez apenas alguns minutos do seu tempo para ouvir alguém que ficou sem respostas.

Nem tudo pode ser consertado. Nem todas as feridas desaparecem. Nem toda relação merece ou consegue ser reconstruída.

Mas muitas situações poderiam ser amenizadas se deixássemos o orgulho de lado por alguns instantes e adotássemos uma postura mais humana diante daqueles que cruzaram nosso caminho.

Afinal, reconhecer erros não nos torna menores.

Pelo contrário.

Poucas demonstrações de maturidade são tão valiosas quanto a capacidade de admitir que falhamos, reparar danos quando possível e aprender com aquilo que causamos aos outros.

A vida já é curta demais para carregarmos pesos desnecessários.

E talvez seja ainda mais curta para desperdiçarmos oportunidades de sermos melhores do que fomos ontem.









XOXO

 



FONTES DAS IMAGENS

https://tudoparahomens.com.br/qual-a-sua-influencia-no-outro/amp/

https://br.pinterest.com/pin/27584616455932559/

http://www.paginarevista.com.br/noticia/responsabilidade-emocional/4380

https://www.qwerty.com.br/2020/07/25/qwerty-editorial-nao-estara-faltando-empatia-ao-pedritense/


Comentários

  1. Catarina amei ,você está muito acertiva em suas considerações e até me ajudou a reflexão.Parabens . Adorei.

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