Tal mãe, tal filha (2000-2007) - Série
By Cathy Scarlet
FICHA TÉCNICA:
Série: Tal mãe, tal filha (Gilmore Girls)
Criadora: Amy Sherman-Palladino
Ano: 2000 a 2007
Duração: 7 temporadas (153 episódios)
País: Estados Unidos
Gênero: Comédia dramática
Nota: 7
Há muitooooooo tempo eu queria assistir a essa série. Contudo, quando ela passava na TV aberta, nunca tive a oportunidade de acompanhá-la com atenção do começo ao fim. Assim, ao encontrá-la no catálogo da Netflix, não perdi a chance. Depois de algumas semanas imersa em Stars Hollow — a pequena cidade onde se passa boa parte da narrativa e na qual os habitantes parecem estar constantemente envolvidos na vida uns dos outros, especialmente na das protagonistas — finalmente concluí a série e parei para tecer algumas considerações, levando em conta tanto o contexto de sua produção quanto as peculiaridades da trama.
Sem grandes surpresas, o enredo gira em torno da vida de Lorelai Gilmore e sua filha, também chamada Lorelai Gilmore. Sim, ambas compartilham o mesmo nome de batismo e acredito que esse tenha sido um dos motivos pelos quais a filha passou a ser chamada de Rory, facilitando a diferenciação entre as duas ao longo da narrativa.
Mãe e filha constroem uma relação marcada por cumplicidade, amizade e união que, apenas em raros momentos, é colocada à prova por conflitos comuns entre pais e filhos. Ao longo da série, é admirável a forma como conseguem manter esse vínculo equilibrado, mesmo quando Lorelai — principalmente ela — age de maneira incoerente ou excessivamente dramática, especialmente em situações envolvendo seus pais, Emily e Richard, ou seus relacionamentos amorosos, aspecto particularmente problemático em sua trajetória. E, sejamos honestos, nesse ponto é difícil não compreendê-la.
Como mãe solteira, Lorelai dedicou-se a criar Rory sem depender financeiramente dos pais ricos. Tudo parecia funcionar relativamente bem até surgir a necessidade de matricular a filha em uma das melhores escolas particulares da região, visando prepará-la para realizar o sonho de ingressar em Harvard.
A partir daí, torna-se evidente a relação conturbada entre Lorelai e seus pais. Trata-se de um contraste interessante, sobretudo porque ela é uma personagem extremamente carismática, comunicativa e dona de um humor afiado. Nesse contexto, Rory acaba funcionando como uma espécie de ponte entre os diferentes membros da família, amenizando conflitos e aproximando pessoas que dificilmente conseguiriam conviver harmoniosamente por conta própria.
Já em Stars Hollow, Lorelai mantém uma amizade de longa data com Luke Danes, proprietário da lanchonete local. Desde os primeiros episódios, seus sentimentos por ela parecem bastante evidentes, embora a relação permaneça estagnada por muitos anos. Mais adiante, descobrimos detalhes que reforçam a ideia de que Luke sempre nutriu sentimentos profundos por Lorelai. No entanto, a presença recorrente de Christopher, pai de Rory e antigo amor da protagonista, constantemente desestabiliza essa dinâmica e coloca Luke em uma posição delicada.
Para complicar ainda mais a situação, a própria Lorelai demonstra certa dificuldade em compreender a importância que cada um desses homens ocupa em sua vida, o que frequentemente a leva a tomar decisões impulsivas em momentos emocionalmente complexos.
Enquanto isso, Rory acaba se tornando o principal apoio da mãe. Contudo, a jovem também revela inseguranças e toma decisões questionáveis ao longo da série. Um exemplo marcante é seu envolvimento com Dean quando ele já estava casado, depois de tê-lo rejeitado anteriormente por causa de Jess Mariano, sobrinho de Luke.
Outro momento memorável ocorre quando Rory e Logan são presos após roubarem um iate. Sentindo-se fracassada e profundamente abalada pelas críticas do pai do namorado — que afirmara que ela não possuía talento para seguir carreira no jornalismo —, ela toma uma das decisões mais impulsivas e contraditórias de toda a sua trajetória.
É claro que a trama não se resume apenas às protagonistas. Ao longo das temporadas, somos apresentados a inúmeros personagens que ajudam a construir o charme peculiar de Stars Hollow e a enriquecer as histórias centrais.
A produção também contou com participações de atores que, posteriormente, conquistariam grande destaque na televisão e no cinema, como Jared Padalecki, que interpreta Dean, e Krysten Ritter, que anos mais tarde ficaria conhecida mundialmente por protagonizar Jessica Jones.
Entretanto, seria impossível falar do elenco sem mencionar Sookie St. James, a melhor amiga de Lorelai. Interpretada pela sempre carismática e hilária Melissa McCarthy, a personagem proporciona alguns dos momentos mais divertidos da narrativa, equilibrando o drama familiar e amoroso com doses bem-vindas de humor.
Trata-se de uma narrativa leve, na qual os conflitos tendem a se repetir e raramente atingem níveis verdadeiramente dramáticos ou intensos, salvo alguns momentos pontuais de maior tensão. Há também uma camada cômica presente em diversos personagens e em suas interações, responsável por arrancar alguns sorrisos do espectador.
Contudo, não diria que a série chega a provocar gargalhadas memoráveis. Apesar de recomendável e extremamente agradável de acompanhar, sua proposta é relativamente morna nesse aspecto. Nem mesmo a presença da talentosa Melissa McCarthy foi suficiente para transformar a produção em uma comédia mais marcante, embora o humor esteja presente e cumpra bem sua função dentro da narrativa.
Outro aspecto que me chamou atenção — desta vez de forma negativa — foi a complexa relação entre Lorelai e seus pais. Tenho a impressão de que esse conflito poderia ter sido explorado de maneira mais aprofundada. Embora seja evidente que existam ressentimentos e feridas antigas entre eles, a série raramente oferece elementos suficientes para que o espectador compreenda plenamente a origem e a dimensão desses conflitos.
Em diversos momentos, a sensação é a de que faltam peças importantes nesse quebra-cabeça familiar. Um aprofundamento maior teria contribuído para tornar as motivações dos personagens mais claras e, consequentemente, para suavizar algumas das dificuldades de compreensão que surgem ao longo da trama.
De modo geral, compreendo perfeitamente por que a série foi tão bem recebida em sua época. Entretanto, não estou convencida de que alcançaria o mesmo impacto caso fosse lançada atualmente, desconsiderando-se o fator nostalgia que a acompanha.
Um dos motivos para isso é justamente a forma como muitos dos conflitos pessoais e familiares são abordados. Frequentemente, eles parecem superficiais ou insuficientemente desenvolvidos. Um exemplo disso é a relação de Lorelai com Christopher. Considerando sua ausência significativa durante a criação de Rory, sempre me pareceu difícil compreender por que Lorelai continuava cogitando uma reconciliação amorosa com ele, independentemente das justificativas apresentadas pela narrativa.
Esse tipo de situação contribui para uma percepção ambígua das personagens. Em alguns momentos, aproximamo-nos delas e torcemos por seus sucessos; em outros, suas atitudes parecem tão excessivamente dramatizadas ou pouco explicadas que se torna difícil compreendê-las plenamente.
Ainda assim, vale a pena assistir?
Sem dúvida.
A série possui qualidades inegáveis. A amizade e cumplicidade entre Lorelai e Rory continuam sendo seu maior trunfo, assim como o carisma dos habitantes de Stars Hollow e as relações construídas entre os personagens secundários. Além disso, há uma tentativa interessante de abordar a construção da identidade de cada personagem e a influência que o passado exerce sobre suas escolhas.
Talvez o maior problema seja justamente este: a série nos mostra os efeitos desse passado, mas nem sempre nos permite compreender completamente as causas que os originaram.
Ainda assim, a experiência continua sendo agradável e suficientemente envolvente para justificar a recomendação.
XOXO
FONTES DAS IMAGENS
http://www.adorocinema.com/series/serie-114/temporada-1483/
https://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/jared-padalecki-dean-esta-confirmado-em-gilmore-girls-18652511
https://spinoff.com.br/milo-ventimiglia-esta-confirmado-no-revival-de-gilmore-girls-na-netflix/
https://mixdeseries.com.br/gilmore-girls-por-onde-anda-o-elenco-da-serie-confira/
https://modomeu.com/cinema-e-tv/series/o-prazer-de-rever-historia-atemporal-de-gilmore-girls







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