Dois Papas (2019) - Filme


By Cathy Scarlet




FICHA TÉCNICA:

Filme: Dois Papas (The Two Popes)
Diretor: Fernando Meirelles
Ano: 2019
Duração: 125 minutos
País: Reino Unido e Itália
Gênero: Drama biográfico
Nota: 9



Nesta produção da Netflix dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles, somos convidados a acompanhar os bastidores da sucessão papal ocorrida em 2005 e os acontecimentos que culminaram na histórica renúncia de Bento XVI em 2013. Como um papa pôde abdicar do mais alto cargo da Igreja Católica em pleno século XXI? Quais motivos o levaram a tomar uma decisão tão rara? E estaria seu sucessor preparado para assumir a liderança da Igreja em um período marcado por crises, escândalos e questionamentos cada vez mais intensos?

Após a morte de João Paulo II, o cardeal alemão Joseph Ratzinger (Anthony Hopkins) surge como um dos principais nomes para ocupar o trono de São Pedro. Após sucessivas votações e intensos debates entre os cardeais, é eleito papa, adotando o nome de Bento XVI. Entre os nomes cogitados durante o conclave estava também o do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio (Jonathan Pryce), então arcebispo de Buenos Aires. Contudo, o próprio Bergoglio considerava improvável sua eleição, sobretudo diante da predominância de setores mais conservadores da Igreja, pouco inclinados a mudanças significativas.










Ao assumir como Papa, Bento XVI tornou-se responsável por consertar os erros da caminhada religiosa de alguns sacerdotes.



Embora tenha sido bem-sucedido em sua eleição para o papado, Bento XVI demonstra crescente dificuldade em lidar com as constantes acusações de pedofilia e com os escândalos envolvendo a Igreja Católica. O peso dessas controvérsias, somado às críticas direcionadas à sua postura diante dos acontecimentos, passa a desgastá-lo emocional e fisicamente.

Na Argentina, Jorge Mario Bergoglio aguarda uma resposta ao pedido de aposentadoria que havia encaminhado ao Vaticano. Diante da demora, decide viajar pessoalmente a Roma, onde acaba encontrando Bento XVI na residência de verão papal, justamente quando mais um escândalo envolvendo a Igreja ganhava destaque na mídia.

O encontro evidencia as diferenças entre os dois religiosos. Bento XVI representa uma postura mais conservadora e cautelosa diante das mudanças; Bergoglio, por sua vez, defende uma Igreja mais aberta ao diálogo com o mundo contemporâneo, acolhedora para com aqueles que necessitam de misericórdia, compreensão e amparo, em vez de julgamentos e exclusão.

Em determinado momento, Bento XVI observa que o arcebispo argentino já sustentara posições diferentes daquelas que defendia no presente. Com serenidade, Bergoglio responde que mudou. A fala, simples à primeira vista, revela uma das ideias centrais do filme: a capacidade humana de evoluir, rever convicções e transformar-se ao longo da vida, sem permanecer aprisionada a verdades consideradas absolutas ou imutáveis.

Durante sua permanência em Roma, a relação entre os dois se desenvolve gradualmente, enquanto aspectos importantes da trajetória de Bergoglio são revisitados. O arcebispo decide compartilhar momentos marcantes de sua história religiosa, desde o rompimento de seu compromisso amoroso até sua entrada na Companhia de Jesus, onde estabelece vínculos de amizade com os padres Franz Jalics e Orlando Yorio.



Bento XVI (Anthony Hopkins) e Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce) em cena, na casa de veraneio papal.


Bento XVI recusa conceder a aposentadoria solicitada por Bergoglio, pois teme que tal decisão seja interpretada como uma demonstração de falta de confiança em sua liderança, enfraquecendo ainda mais a Igreja Católica em um momento delicado. Evitando prolongar a discussão sobre o pedido, convence o arcebispo a acompanhá-lo até o Vaticano. É então que revela sua verdadeira intenção: renunciar ao papado.

A decisão surpreende Bergoglio. Afinal, trata-se de uma ruptura com uma tradição secular associada à continuidade do cargo. Bento, porém, argumenta que já houve renúncias papais em outros períodos da História e que, naquele momento, a mudança era necessária. Mais do que isso, sugere o nome do próprio Bergoglio como sucessor.

Desta vez, é o argentino quem rejeita a possibilidade. O motivo encontra-se em seu passado e em sua atuação durante a ditadura militar argentina.

Em uma série de flashbacks, somos conduzidos aos anos 1970, período marcado pela perseguição política, pelos desaparecimentos forçados e pela violência promovida pelo regime militar. Muitos religiosos católicos se posicionaram contra o governo e sofreram represálias severas. Padres e freiras foram perseguidos, presos e até assassinados.

Temendo que mais vidas fossem perdidas, o então padre Bergoglio procurou estabelecer diálogo com os militares na tentativa de mediar conflitos e evitar novas tragédias. Ao mesmo tempo, buscava alertar seus amigos sobre os riscos que corriam. Contudo, sua aproximação com membros do regime passou a despertar desconfiança entre aqueles que lutavam contra a ditadura, levando muitos a enxergá-lo como um possível colaborador.

Com o passar do tempo, Bergoglio passou a acreditar que havia fracassado em proteger pessoas que admirava profundamente. O sentimento de culpa tornou-se uma das marcas mais dolorosas de sua trajetória. Bento XVI, entretanto, apresenta outra perspectiva: embora sua postura tenha sido alvo de críticas, também permitiu que ele oferecesse abrigo e proteção a perseguidos políticos, contribuindo para salvar inúmeras vidas. Ainda assim, Bergoglio continua convencido de que poderia ter feito mais.

Posteriormente, já afastado das posições de destaque na Igreja, passa cerca de dez anos trabalhando em uma comunidade distante. É nesse período que reencontra Franz Jalics e vive um dos momentos mais emocionantes do filme: a reconciliação entre ambos durante uma celebração religiosa. Ao ser questionado sobre Orlando Yorio, admite que jamais recebeu dele o mesmo perdão.

Percebendo o peso que o passado ainda exerce sobre o argentino, Bento XVI decide conceder-lhe a absolvição moral que ele nunca conseguiu oferecer a si mesmo. Pouco depois, os papéis se invertem. O papa pede para confessar-se e revela sua profunda culpa pela omissão diante dos casos de abuso sexual envolvendo membros da Igreja.

Indignado, Bergoglio argumenta que esse arrependimento deveria ser justamente o motivo para Bento permanecer à frente da instituição e ajudar a reparar os danos causados. Contudo, a decisão já estava tomada. Em uma das cenas mais belas e simbólicas da obra, Bergoglio concede a absolvição ao papa, encerrando um encontro marcado não apenas por divergências ideológicas, mas também pela compreensão, pelo perdão e pela humanidade compartilhada entre dois homens conscientes de suas falhas.



Ao se ver perdoado, um peso enorme parece ser retirado dos ombros de Bento XVI, o que também comove profundamente o arcebispo argentino. Um ano depois, o papa renuncia ao cargo, e Francisco assume seu lugar, adotando esse nome em homenagem a São Francisco de Assis, símbolo de humildade e simplicidade.

Há diversos aspectos interessantes a serem destacados na obra. Contudo, o que mais chama a atenção é o olhar profundamente humanizado lançado sobre os dois protagonistas. Ambos são apresentados como homens capazes de errar e acertar, de carregar culpas e conceder perdão, tornando a narrativa sensível, profunda e marcada pela compaixão.

Embora se trate de um filme centrado em figuras da Igreja Católica, vale ressaltar que todos nós carregamos algum tipo de missão ou propósito. Independentemente da crença de cada um, é difícil não perceber que nossas escolhas acabam produzindo impactos que ultrapassam nossa própria existência. Há, em Bergoglio, o desejo de tornar-se papa e promover mudanças que aproximem a Igreja de seus fiéis. Entretanto, diversos fatores interferem na concretização desse objetivo, especialmente a culpa e o peso das decisões tomadas no passado.

Não é novidade que a Igreja Católica surgiu com o propósito de levar sua mensagem ao mundo e promover o bem ao próximo. Contudo, ao longo dos séculos, fatores históricos diversos também a transformaram em espaço de disputas políticas, interesses econômicos e episódios que se afastaram de seus princípios originais. Sem me aprofundar nessa discussão, que extrapola os limites desta análise, considero importante recordar esse contexto para compreender melhor os conflitos apresentados no filme.

Ao observarmos Bento XVI, percebemos alguém que, em determinado momento, ambicionou ocupar o mais alto cargo da Igreja. Entretanto, nem tudo o que reluz é ouro. Nem sempre posições de prestígio trazem felicidade ou realização pessoal. Muitas vezes, vêm acompanhadas de responsabilidades esmagadoras, renúncias dolorosas e desafios que colocam à prova a resistência emocional e física de qualquer ser humano. Nesse sentido, o filme sugere que o papado pode exigir muito mais do que oferecer recompensas.

Também é possível compreender a dificuldade enfrentada por Bento ao lidar com estruturas, tradições e problemas profundamente enraizados na instituição que passou a liderar. Romper com práticas negativas ou enfrentar questões históricas delicadas raramente é uma tarefa simples. Toda instituição é formada por seres humanos e, portanto, está sujeita às mesmas falhas, limitações e contradições presentes na sociedade da qual faz parte. Por isso, promover mudanças significativas costuma ser um processo lento, desgastante e, muitas vezes, solitário.

Ao acompanharmos o percurso de Bento XVI, percebemos o peso que a função passou a exercer sobre ele. Vemo-lo cansado, preso a tradições que já não parecem responder adequadamente aos desafios do presente e distante da convicção que antes orientava sua missão. Quando decide abrir mão do cargo e apoiar Bergoglio como sucessor, o faz porque reconhece nele qualidades que acredita já não possuir em igual medida: capacidade de diálogo, espírito conciliador, compaixão e proximidade com as pessoas.

Entretanto, a culpa também impedia Bergoglio de aceitar plenamente essa possibilidade. Somente ao sentir-se perdoado consegue libertar-se do passado que o aprisionava. Da mesma forma, ao conceder perdão a Bento XVI, ajuda o papa a encontrar paz diante dos erros e omissões que carregava consigo.

Talvez uma das maiores reflexões propostas pelo filme seja justamente esta: com frequência estamos mais preocupados em julgar os erros dos outros do que em compreender a complexidade das circunstâncias que os cercam. Muitas vezes observamos apenas fragmentos de uma história, sem conhecer o contexto completo. Esquecemos que também somos falhos, que igualmente tomamos decisões equivocadas e que nem sempre conseguimos agir da melhor maneira possível, mesmo quando nossas intenções são legítimas.

Ao vermos Bento XVI deslocado em sua própria função e Francisco assumir o papado com simplicidade e humildade, percebemos que as transformações mais importantes começam dentro de nós. A mudança de perspectiva, de atitude e de postura diante do próximo pode ser tão significativa quanto qualquer reforma institucional. A simplicidade demonstrada por Francisco nos leva a refletir não apenas sobre as instituições religiosas e sua relação com os fiéis, mas também sobre a importância de usar nossa voz em favor daqueles que são invisibilizados, desprezados, discriminados ou ridicularizados pela sociedade.

Para concluir, deixo algumas questões para reflexão:

  1. É realmente gratificante ocupar posições de destaque sem possuir a preparação ou a competência necessárias apenas para alimentar o próprio ego?
  2. Carregamos alguma culpa ou sentimento que esteja nos impedindo de concretizar nossos objetivos?
  3. Nossas ações são motivadas pelo desejo de beneficiar apenas a nós mesmos ou também pelo desejo de fazer o bem aos outros, ainda que por meio de pequenos gestos?
  4. Quem de nós nunca cometeu erros? E de que forma lidamos com eles quando reconhecemos suas consequências?








XOXO






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