A Escola Não Faz Milagres


By Cathy Scarlet


Após alguns meses sem publicar nada por aqui, retorno justamente com um tema extremamente atual na minha vida e, ao mesmo tempo, bastante presente nas salas de aula de inúmeras escolas brasileiras.

Antes de qualquer coisa, é importante dizer o óbvio: lecionar não é fácil.

O que talvez nem todos percebam é que os anos finais de cada etapa escolar — seja no Ensino Fundamental ou no Ensino Médio — costumam trazer um peso adicional. Sobre essas turmas recaem expectativas, cobranças e avaliações que frequentemente são traduzidas em números, índices e estatísticas. Mesmo quando a pressão não é explicitamente feita pela gestão escolar ou pelos colegas de trabalho, ela está presente, silenciosa, acompanhando cada decisão tomada em sala de aula.

Neste ano, essa cobrança tornou-se uma verdadeira companheira de jornada. Como professora de Língua Portuguesa atuando com turmas de terceiro ano do Ensino Médio, senti-me constantemente desafiada a provar que sou capaz de realizar um bom trabalho. Talvez essa exigência venha mais de mim mesma do que de qualquer outra pessoa. O perfeccionismo tem dessas coisas.

Não se trata de status. Aliás, desconheço qualquer glamour em trabalhar com turmas que, além das avaliações externas, ainda precisam lidar com projetos, pesquisas, produções acadêmicas e, no caso da minha escola, com o TCC. Desde o primeiro dia de aula, tenho buscado maneiras de ajudá-los a enfrentar esse desafio da melhor forma possível.

Ainda assim, permanece a sensação de que o trabalho docente é constantemente reduzido a indicadores de desempenho. Como se ensinar pudesse ser medido apenas por gráficos e estatísticas.

Mas existe outro aspecto igualmente desgastante: gerenciar conflitos.

E isso cansa.

Cansa muito.

Principalmente porque boa parte desses conflitos poderia ser evitada. Muitas vezes, parece mais fácil reclamar, criar atritos ou transformar pequenos problemas em grandes dramas do que assumir responsabilidades e agir em benefício próprio.

Enquanto isso, o que deveria ocupar o centro da experiência escolar — a aprendizagem — acaba sendo colocado em segundo plano.

Tudo pode se tornar motivo de reclamação.

"Professora, você veio hoje?"

"Por que não faltou?"

"Não vai embora mais cedo?"

"Deixa a gente ter aula vaga."

Pedidos que normalmente são ignorados com relativo sucesso.

Mas as situações mais curiosas surgem quando entram em cena os especialistas em faltar às aulas:

ALUNO QUE SÓ FALTA E NÃO FAZ NADA 1:

— Professora, como estão minhas notas?

(A pergunta geralmente é feita por alguém que raramente aparece e, quando aparece, não realiza nenhuma atividade.)

ALUNO QUE SÓ FALTA E NÃO FAZ NADA 2:

— Professora, passa um trabalho para mim?

(Traduzindo: um trabalho para ele significa mais um trabalho para corrigir para mim.)

ALUNO QUE SÓ FALTA E NÃO FAZ NADA 3:

— O que eu faço para passar na sua matéria?

(A resposta costuma ser surpreendentemente simples: frequentar as aulas e realizar as atividades.)

ALUNO QUE SÓ FALTA E NÃO FAZ NADA 4:

— Compensa todas as minhas faltas, tá?

(Claro. Afinal, quem quase nunca comparece merece terminar o ano com frequência maior do que quem esteve presente o tempo todo.)

Também existem aqueles que passam a aula inteira conversando, dormindo ou completamente desconectados do que está acontecendo e, nos minutos finais, perguntam:

— Professora, explica a matéria para mim?

Ou:

— Como faz isso mesmo?

Nesses momentos, confesso que sinto certa admiração pelos que conseguem dormir durante todas as aulas. Às vezes fico em dúvida se estão apenas descansando ou se transcenderam para outro plano de existência. Em dias particularmente cansativos, chega a despertar uma inveja involuntária.

O problema é que essas situações revelam algo preocupante: para muitos estudantes, tornou-se mais fácil buscar atalhos do que assumir o esforço necessário para aprender.

E talvez seja justamente aí que resida uma das maiores dificuldades da educação contemporânea.

A escola corre o risco de ser vista apenas como um espaço de convivência social, enquanto o conhecimento, a responsabilidade, o compromisso e o respeito às pessoas passam a ocupar um papel secundário.

Isso me preocupa.

Porque aprender nunca foi apenas acumular informações. Aprender é desenvolver autonomia, pensamento crítico, capacidade de compreender o mundo e de transformá-lo.

Quando abrimos mão disso, não estamos apenas deixando de ensinar conteúdos.

Estamos deixando de formar cidadãos capazes de refletir sobre a realidade em que vivem e de agir sobre ela de maneira consciente e responsável.



Consequentemente, temos muitos jovens que concluem a educação básica sem direção clara, sem perspectivas e, muitas vezes, sem reconhecer o próprio potencial. Sentem-se desvalorizados pelo mundo e frequentemente atribuem essa sensação à escola. O mais preocupante é que, em muitos casos, não perceberam que a aprendizagem exige participação ativa e compromisso pessoal.

A escola, por si só, não faz milagres. Seu trabalho depende da colaboração de todos os envolvidos: alunos, famílias, professores e gestores.

Entretanto, tornou-se cada vez mais comum responsabilizar exclusivamente a instituição escolar pelos resultados obtidos. Para quem está fora da educação, a crítica costuma ser simples. Já ouvi, por exemplo, pessoas afirmarem que professores não deveriam reclamar das condições da profissão porque "já sabiam como a educação era". Seguindo essa lógica, talvez eu devesse processar meus antigos professores universitários por não terem previsto todos os desafios que encontraria pela frente.

Mas deixemos a ironia de lado.

Em que circunstância um estudante aprende quando passa o ano inteiro distraído com jogos, redes sociais ou conversas paralelas, sem aproveitar as oportunidades de tirar dúvidas e participar das atividades propostas?

Em que circunstância um jovem se sente motivado a estudar quando os próprios responsáveis desvalorizam projetos, trabalhos e iniciativas pedagógicas?

Em que circunstância a escola consegue exercer seu papel quando qualquer tentativa de intervenção educativa é interpretada como perseguição, implicância ou abuso de autoridade?

Talvez uma das maiores dificuldades da educação contemporânea seja justamente essa: a transferência constante de responsabilidades.

Quando o aluno não aprende, a culpa é da escola.

Quando apresenta dificuldades de comportamento, a culpa é da escola.

Quando não demonstra comprometimento, a culpa continua sendo da escola.

Pouco se discute sobre a parcela de responsabilidade que cabe à família, ao próprio estudante e até mesmo à sociedade que, muitas vezes, transmite mensagens contraditórias sobre a importância do conhecimento.

O resultado é preocupante. Em diversos contextos, a escola deixa de ser percebida como um espaço de formação e passa a ser tratada apenas como um local de permanência, uma instituição encarregada de acolher jovens durante parte do dia sem que necessariamente exista um compromisso coletivo com sua formação.

E então surge uma questão inevitável.

Em que mundo esses jovens não precisarão lidar com frustrações, responsabilidades e desafios?

Em que realidade não precisarão desenvolver autonomia, disciplina e capacidade de adaptação?

Mais cedo ou mais tarde, todos nós somos confrontados pela necessidade de enfrentar dificuldades, resolver problemas e assumir as consequências das nossas escolhas. Privar os jovens desse aprendizado não é protegê-los; é apenas adiar um encontro inevitável com a realidade.

Aprender vai muito além da aquisição de conteúdos escolares. Aprender desenvolve pensamento crítico, autonomia intelectual e capacidade de questionar discursos prontos e promessas vazias. Aprender permite compreender o mundo de forma mais profunda e agir sobre ele de maneira consciente.

A educação não elimina todas as desigualdades nem resolve todos os problemas sociais. Contudo, continua sendo uma das ferramentas mais poderosas para ampliar oportunidades, promover autonomia e formar cidadãos capazes de transformar a realidade em que vivem.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja se a escola está falhando.

Talvez devêssemos nos perguntar se, como sociedade, estamos realmente valorizando aquilo que afirmamos esperar da educação.

Será que conseguiremos reconhecer sua importância antes que ela seja reduzida apenas a números, estatísticas e certificados?

Ou continuaremos procurando culpados enquanto deixamos de enfrentar as causas dos problemas que tanto criticamos?















XOXO








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