Mariguella #Livre - Rogério Faria (2020)

 By Cathy Scarlet



FICHA TÉCNICA

Livro: Mariguella #Livre
Autores: Rogério Faria
Ilustrador: Ricardo Sousa e Jefferson Costa
Ano de Lançamento: 2020
Gênero: HQ
Editora: Editora Draco

Nota: 7


Ainda naquele esquema de demorar tanto quanto os mangás da Devir, lhes trago mais uma obra surgida das minhas fuçadas pela Amazon.

Falar de figuras que fizeram parte da história da nação brasileira nunca é uma tarefa simples. Requer delinear alguns momentos específicos e marcantes, principalmente no gênero história em quadrinhos. Desta vez, a proposta foi falar sobre Carlos Mariguella, figura política que gera, até hoje, polêmicas sobre a compreensão de sua luta e das vozes que contam sua trajetória. 

O autor da obra, Rogério Faria, formado em Direito, é roteirista e editor-assistente da Editora Draco. Com mais de dez lidando com o gênero HQ, publicou outros trabalhos, dentre os quais cito Corpos secos (2019) e Pobrefobia (2024). Também já ministrou cursos e oficinas sobre quadrinhos. Para quem quiser saber mais um pouco dele, deixei o link no final desta  resenha. Além de todo o currículo, vale destacar esse engajamento social e político que o mobiliza. Ainda é acompanhado pelas ilustrações de Ricardo Sousa e Jefferson Costa.


Rogério Faria

A obra retrata os momentos de tortura e de perseguição sofridos por Carlos Mariguella, que nasceu em Salvador, Bahia, em 1911. 


Carlos Mariguella


Filho do imigrante italiano, Augusto Mariguella, e da baiana Maria Rita do Nascimento. Esta empregada doméstica e negra. Os quadrinhos mostram o empenho do pai em alfabetizá-lo. Desde cedo, cultivou em Carlos a necessidade de ler e estudar. Ainda na juventude, tornou-se militante  e político pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro). 

Diante de nossos olhos surgem o autoritarismo, a arrogância e a corrupção, marcas da Ditadura brasileira. A indignação vira nossa companhia página a página ao nos depararmos com o absurdo das atitudes dos policiais, com a humilhação do torturado e com a extrema violência para silenciar uma voz que ia contra os desmandos da sociedade.


 
Cenas extraídas da HQ de Mariguela #livre 


A leitura é rápida, mas extremamente significativa. Mais do que apresentar a trajetória de uma figura histórica marcante, a obra nos convida a refletir sobre as injustiças enfrentadas por aqueles que dedicam suas vidas à defesa de causas coletivas e sobre a forma como narrativas podem ser construídas, manipuladas ou mesmo invertidas ao longo do tempo.

Ao acompanhar essa história, torna-se difícil não pensar em quantas pessoas ainda hoje lutam para que suas vozes sejam ouvidas e quantas acabam sendo silenciadas por interesses políticos, econômicos ou ideológicos. Continuamos vivendo em uma sociedade marcada por disputas de poder, pela influência de grupos privilegiados e pela dificuldade de garantir que diferentes perspectivas sejam conhecidas e debatidas de forma justa.

Talvez por isso a obra permaneça tão atual.

Minha principal crítica, entretanto, está na pouca atenção dedicada à trajetória de Carlos Marighella propriamente dita. Em diversos momentos, senti que sua atuação política e suas contribuições para a resistência à ditadura poderiam ter sido exploradas de forma mais aprofundada. Trata-se de uma oportunidade valiosa para apresentar ao leitor não apenas o personagem histórico, mas também os debates que cercam suas ideias e seu contexto de atuação.

Além disso, a obra poderia ampliar a discussão sobre conceitos políticos frequentemente reduzidos a simplificações ou preconceitos. Independentemente das posições ideológicas de cada leitor, compreender uma teoria ou um movimento histórico é fundamental para que possamos analisá-los criticamente, evitando interpretações superficiais ou baseadas apenas em estereótipos.

Isso não significa ignorar erros, contradições ou falhas dos diferentes sistemas políticos que marcaram a história. Pelo contrário: significa buscar compreendê-los em sua complexidade.

Fora essa ressalva, trata-se de uma graphic novel visualmente impressionante. As ilustrações são um espetáculo à parte, demonstrando grande domínio técnico e contribuindo significativamente para o impacto emocional da narrativa.

Também não posso deixar de mencionar os excelentes prefácio e posfácio, assinados por Cynara Menezes e Luis Nassif, respectivamente. Ambos oferecem reflexões instigantes e complementam a leitura de forma bastante enriquecedora.

No conjunto, a obra consegue cumprir seu papel de despertar curiosidade, provocar reflexão e incentivar o leitor a buscar mais informações sobre um personagem histórico que continua gerando debates, questionamentos e interpretações diversas até os dias atuais.








XOXO





REFERÊNCIAS

https://rogeriofaria.com/ 

https://www.amazon.com.br/Marighella-livre-Rog%C3%A9rio-Faria/dp/6557530003


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