A obsolescência programada dos nossos sentimentos - Zidrou & Aimée de Jongh (2022)
By Cathy Scarlet
FICHA TÉCNICA
Autor: Zidrou & Aimée de Jongh
Começarei esta resenha como se fosse um dicionário:
O que é obsolescência?
O que significa, afinal?
O termo nada mais é do que o processo de tornar-se obsoleto, ultrapassado, antiquado. Em outras palavras: velho.
O próprio título desta obra já chama atenção pela força da crítica que propõe, reforçada pela imagem da capa: duas pessoas idosas, nuas e vistas de costas.
Somos imediatamente levados a refletir sobre uma espécie de obsolescência programada dos sentimentos, dos sonhos e até mesmo das pessoas. Como se a sociedade determinasse, em determinado momento, que já não somos úteis, desejáveis ou relevantes.
Sentimentos de inferioridade, incapacidade, resignação e renúncia passam a ocupar espaço onde antes havia projetos, desejos e possibilidades.
É justamente sobre isso que falaremos por aqui.
Quando pensamos em terceira idade, velhice ou envelhecimento, será que realmente compreendemos a dimensão dessa etapa da vida? Conseguimos entender seus conflitos, dilemas, medos e expectativas em uma sociedade que frequentemente associa o envelhecer à inutilidade, ao esquecimento e à perda de valor?
É por meio dessas questões que Zidrou e Aimée de Jongh nos conduzem a reflexões extremamente importantes.
Antes, porém, vale a pena conhecer um pouco melhor os autores.
Zidrou, pseudônimo de Benoît Drousie, nasceu em Anderlecht, região de Bruxelas, na Bélgica, em 1962. Atuou como professor antes de se dedicar integralmente à escrita e hoje é amplamente reconhecido e premiado por suas produções.
Já Aimée de Jongh, nascida em 1988, em Waalwijk, na Holanda, é cartunista, ilustradora e animadora, também colecionando prêmios por seus trabalhos, muitos deles publicados internacionalmente.
A parceria entre ambos mostra-se extremamente bem-sucedida. Como podemos perceber nesta obra, texto e imagem caminham lado a lado, construindo uma narrativa que se aproxima da poesia visual e literária.
O resultado é uma abordagem sensível, delicada e profundamente humana de um tema cuja complexidade nem sempre recebe a atenção que merece.
Agora, voltando ao que nos interessa: nosso objeto em análise.
A história começa apresentando Mediterrânea Solenza, ex-modelo e proprietária de uma loja de queijos herdada do pai. Recém enlutada pela perda da mãe, ela se vê diante de uma realidade difícil de ignorar: o peso da idade e a necessidade de aceitar as transformações trazidas pelo tempo.
Logo em seguida, conhecemos Ulisses Varennes, que acaba de perder o emprego. Viúvo, sem netos — já que seu filho, Julien, não pretende ter filhos — e buscando consolo em encontros ocasionais com uma mulher casada, também se encontra diante de um dilema: a falta de perspectivas para o futuro.
Imersos em seus mundos cinzentos, os dois acabam se encontrando no consultório onde Julien trabalha como médico. Algum tempo depois, Ulisses decide procurá-la em sua loja e, a partir desse reencontro, os laços entre ambos começam a se fortalecer.
A convivência devolve a Mediterrânea parte da confiança que havia perdido ao longo dos anos e leva Ulisses a enxergar o caminho à sua frente com novos olhos, mais esperançosos e receptivos às possibilidades que ainda podem surgir.
A obra é dividida em sete capítulos que acompanham a reconstrução da perspectiva de vida dessas personagens. Pouco a pouco, ambos passam a encarar a maturidade e a velhice não como um período de encerramentos, mas como uma etapa repleta de oportunidades, descobertas e novos significados.
Juntos, passam a valorizar aspectos dessa fase que antes pareciam invisíveis, percebendo-se capazes de retomar sonhos esquecidos e objetivos adiados. O amadurecimento deixa de ser visto como limitação e passa a representar uma fonte de força, experiência e liberdade.
Mediterrânea começa a compreender sua condição de mulher mais velha com mais leveza. Já não se enxerga como a Bruxa da Branca de Neve, mas como uma mulher forte, bonita e realizada.
Ulisses, por sua vez, abandona parte das amarguras que carregava consigo e encontra meios de lidar com as dores do passado. Permite-se aventurar novamente, afastando-se do marasmo e acolhendo um presente inesperado oferecido pelo destino (quem ler descobrirá exatamente do que estou falando).
Para quem aprecia graphic novels, esta obra não deixa absolutamente nada a desejar. E, para aqueles que ainda não se aventuraram por esse universo, fica aqui o convite.
Mais do que uma história, encontramos uma experiência de leitura marcada pela sensibilidade. As ilustrações dialogam perfeitamente com a narrativa, criando uma espécie de poesia visual que amplia ainda mais a profundidade das reflexões propostas.
Texto e imagem trabalham juntos para construir significados que se renovam constantemente diante dos nossos olhos, convidando o leitor a revisitar cenas, emoções e interpretações.
Esta graphic novel nos mostra, por meio de personagens que redescobrem a si mesmos, que o envelhecimento do corpo não precisa significar o envelhecimento da alma.
Os sonhos permanecem.
Os desejos permanecem.
A vontade de viver permanece.
Por isso, recomendo fortemente esta leitura.
Precisamos aprender a valorizar as pessoas mais velhas e compreender que, dentro de cada uma delas, existe um universo inteiro a ser descoberto; há experiências que merecem ser compartilhadas, memórias que merecem ser preservadas e esperanças que continuam vivas apesar da passagem dos anos.
Talvez envelhecer não devesse ser sinônimo de perda, mas de expansão.
De olhar para trás com gratidão, para frente com esperança e para si mesmo com mais compreensão.
No fim das contas, a obra nos convida justamente a isso: a não abandonarmos nossos sonhos, nossos desejos ou nossa capacidade de recomeçar.
Porque tornar-se mais velho não significa tornar-se obsoleto.
XOXO
REFERÊNCIAS DAS IMAGENS
https://fariaesilva.com.br/autor/zidrou-oriol/
https://www.selfmadehero.com/creators/aimee-de-jongh





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